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Onde a jeripoca pia

Outubro 19, 2009

Onde realmente é seguro? Na rua ou em casa? Me perguntei inúmeras vezes sobre essa questão no sábado. Se você tá na rua está sujeito não voltar vivo para casa. Se você está em casa está sujeito ser surpreendido. Você está num fogo cruzado que não tem para onde correr. Só para o bar da esquina, onde um policial está tomando um sorvete. E ainda está sujeito alguém atirar no policial e a bala atravessar o seu chicabon e a azeitona atingir sua cabeça. Isso parece com os filmes do John Ford, não?

Que tal uma historinha?

John Wayne, aqui nesse texto seu nome é Carl Lancaster, entra num bar, onde todos estão sentados bêbados e jogando carta. Carl se aproxima do dono da espelunca e pergunta:

- Onde está o Pele Vermelha?

- Não sei do que você está falando. – responde o covarde bigodudo.

Carl tira seu revólver do coldre e aponta para o nariz medroso do dono do bar, que aponta para o chão de madeira maciça. Carl aponta para o chão e os bêbados ficam apavorados. Quando ele emite o primeiro som do cano de aço, ouvimos sons estranhos de longe. Carl para e se concentra no chão. Quando esse som se aproxima, Carl se joga no chão e um grupo de índios começa a atirar no bar. Garrafas quebradas, cadeiras e mesas furadas e um grande estrago no estabelecimento. O Pele Vermelha aproveita para fugir com seu bando. Carl se levanta e começa a trocar tiros com os índios que somem no crepúsculo. Carl vira-se para o dono do bar, agradece e vai embora. O prejudicado dono da espelunca apenas observa o xerife Carl ir embora.

Essa é apenas uma história do Rio de Janeura. Fico contente com Woody Allen rodar aqui, mas eu iria preferir Sam Peckimpah ou Sergio Leone. Ou trocaria de Woody. Ao invés, Allen seria o Woodpecker com seu pé-de-pano.

Voltando, o último sábado foi o mais “bizarro”, como disse a sogra do meu irmão, da minha vida. Voltava da farra às 6 da manhã de sexta pra sábado e vi as portas da minha casa abertas. Desesperado, corri pra ver se algo havia acontecido. E era meu pai fechando as portas e apagando as luzes. “Você que deixou isso tudo ligado e aberto?”, perguntou meu pai. “Cheguei agora, pai”. Os dois se observaram e franziram as sombracelhas entendendo a solução. Para entender vamos a…

…uma expressão do Fafas Houaiss: Encher a caveira; se embebedar, entornar o caneco, rastejar na loira, tomar um match point e, simplesmente, pessoas estranhas na sua casa que bebem e, irresponsavelmente, trazem outras pessoas estranhas para sua casa.

Foi assim, que eu acordei e não vi meu aparelho de DVD que não tinha uma semana que eu havia comprado. Revoltado, voltei pra cama e coloquei um disco dos Novos Baianos pra rolar no som. A boca estava seca com o número de cigarros que eu fumei e aquele gosto pesado de cerveja da noite passada. Acordei e almocei. Pensava em sair para arejar a cabeça. Comecei uma conversa com uma amiga pela internet e ela me diz: “a cidade está pegando fogo!”. Mas fogo mesmo, literalmente. Um Jason Strahan do morro carioca derrubou um helicóptero, os meus passos rotineiros para o curso de inglês estavam cercados e uma dúzia de índios se apoderara da cidade, mais uma vez. Vou ficar em casa, até segundo ordem. Mais tarde, conformado, untei uma travessa de alumínio com manteiga e coloquei pão de queijo no forno e fiquei o dia inteiro em casa.

De noite,enquanto assistia um filme no meu computador, minha mãe toca no meu ombro e diz: “apareceu seu DVD”. Meu Deus, David Blaine, quero um autógrafo. Não, era apenas um nordestino, mais magro que eu, com roupas de garçom e com consciência pesada (não sei se por levar um DVD ou comer mulher alheia). Minha mãe pegou a chave de casa da sua mão e “agradeceu” ao sujeito incorfomado com a sua falta de honestidade.

Agora eu fico rindo da situação. Mas este sábado eu não vou me esquecer. Tudo foi desviado.  Minha rotina, meus objetos, minha vida. Ela esteve na mão de terceiros. Tudo dependeu deles e, graças a Deus, tudo ocorreu da forma que eu queria. Eu apenas fiquei quieto e agradeci. Afinal, o Rio de Janeura ficaria mais lindo sem mim, uma pessoa rabugenta e que pretendeu comer a mulher alheia três anos atrás. Eu sou uma pessoa rabugenta, que não traz solução e incapaz. Daqui há dez anos estarei aqui sentado nesse mesmo computador reclamando da vida e me fazendo de vítima. Em 28 anos de vida não resolvi nada, mas será que pessoas com mais de 60 fizeram algo pra mudar?  Eu pelo menos tenho mais tempo.

E sim, sou carioca pra caralho! Sou mais do que muitas pessoas que dizem por aí. Amo minha cidade. Gostaria que na minha identidade estivesse CIDADE DA GUANABARA. Tanto amo que conheço todos os seus extremos e não fico com a minha bunda sentada olhando Orkut e criticando os outros. Sei onde a jeripoca pia.

Tanto amo, que ontem perdi meu ônibus antes da meia-noite. Porque reclama? Afinal, meu pai não me deu um carro de presente de dia das crianças, não é Daniel? Só ganhei um carro de plástico no natal de 1982. Enquanto eu ainda cagava nas calças você nem tinha nascido ainda.

Anyway, a Cidade das Olimpíadas não tem ônibus de madrugada. Quero saber como os gringos vão fazer pra visitar a “Apowtyosssy”. Alguma solução? Por favor, esse escritor aqui nunca traz solução nos seus textos. Alguém me ajuda?

Bem, me desculpem o desabafo e a confusão de quem não entendeu bulhufas (o texto desse escritor é confuso e ele não vai chegar a lugar nenhum). E aos palavrões, que não é comum nos textos.

Beijos.

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Saca só a fofura lançando seu segundo CD. Quer mais um motivo para não estar apaixonado por ela?
Junto com Peter Yorn, grande músico que fez trilha-sonora para o filme Eu, eu mesmo e Irene, Ela marca mais presença nesse cenário insosso onde as “estrelas” colocam silicone, são presas por estarem bêbadas ou fazendo programinhas para TV. Eis alguém que realmente está fazendo!
Longa vida para a linda aí abaixo.

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Rindo sem perspectiva

Outubro 6, 2009

Eram por volta das 12:30 na última sexta-feira que veio uma notícia que me tornaria mais rabugento que eu já sou. Preparava uma comida qualquer, pois iria sair com uma amiga e estava meio atrasado.  De repente, no computador, o MSN não parava de fazer barulhos, o telefone começou a tocar, meu celular chegava mensagens.  Acho que todos esperavam mais um comentário meu.  Liguei a TV e vi a praia de Copacabana lotada. As pessoas pulavam, levantavam a bandeira brasileira e já havia gente caindo para os lados, bêbadas e eufóricas. Não sei por que, mas me veio a imagem do Palácio do Planalto quando deram o aval das Diretas. Eu os vi lá. As mesmas pessoas. Não eram exatamente as mesmas pessoas, mas as mesmas por trás de tudo aquilo. Genuíno e Sérgio Cabral. Qual a diferença?

Enquanto conversava pelo telefone, comentava sobre pelo MSN e respondia as mensagens no celular, assistia concentrado àquela imagem. Aquilo era a imagem do terror. Acho que não me acostumo ver o povo feliz. Isso é uma tristeza. Mais triste ainda é ver que os mais prejudicados são exatamente eles.

Comia minha omelete em frente ao computador, enquanto acertava o  horário com a minha amiga e me atrevi a ler o jornal. O site do O Globo estava todo enfeitado, com coqueiros e um pôr-do-sol belo. Parecia capa de disco de rock progressivo. Me assustei com a lentidão, com todo enfeite daquela página poluída, que nem me atrevi a lê-lo. Resolvi fazer hora no Youtube, assistindo a vídeos engraçados. E tudo aquilo me enjoava.  Acho que entendi o por que daquele omelete ter caído mal. Coloquei o u2 nas minhas caixas de som e fui tomar banho.

Mais tarde, de noitinha, fiquei pensando sobre a nossa candidatura aos jogos olímpicos para 2016. Tudo bem, o que seria de bom para melhorar e a cidade fazer um espetáculo, digno de Atenas, por exemplo?  Segurança pública. Tudo bem, é o principal fator e todos nós já sabemos. O que mais? Não sei. Por onde começamos? Já sei! Pela desconfiança!

O que eles pensam fazer com os transportes? As pessoas terão ônibus 24 horas com segurança e cômodo? O saneamento da cidade, que em cada pedaço do centro da cidade os bueiros impregnam nossas narinas? Isso vai ser feito? Hospitais darão conta, tem certeza? Depois de uma noite na emergência do Souza Aguiar (isso porque estava muito tranquilo no dia, segundo os seguranças que conversavam comigo) eu garanto que não. A vontade política dará suficiência qualidade de vida para os cariocas durante esses sete anos? Ou será que eles vão gastar todo dinheiro nessas obras corridas na cidade? A cada pedaço das ruas você vê tapume com aquele bonequinho de pedestre parecido com o Toni Manero, fazendo das calçadas impossíveis de andar. E tenho, chorôrô a parte, só na Zona Sul. E a educação, eventos culturais, que esse ano foi zero na cidade. Há muitos anos que na comemoração do aniversário da cidade não se vê um show para a população. Isso é o de menos. E aqueles esqueletos apodrecidos pós-pan-americano? O elefante branco da “Cidade da Música”? O dinheiro é feito pra isso mesmo. Para ser gasto sem a menor responsabilidade. Mas se um dia você gastar todo o seu salário em pirulito você está errado.

Se você abrir o jornal hoje, dia 06/10, há coisas melhores para se preocupar. Como exemplo, Lula dizer que não pode assumir meta de desmatamento zero, mas fazer lobby com o governo sueco para venda de caças, pode. O presidente não manda nem no partido dele, deixa Hugo Chavez e o PMDB, que são atuais figuras horripilantes da cultura latino-americana, fazer o que quer. É um presidente arrogante, mentiroso e marqueteiro. E pior de tudo, preguiçoso.

E seus amiguinhos de olimpíada seguem o mesmo rumo. Hoje o prefeito surfista defendeu o organizador do Pan, que é acusado pelo Tribunal de Contas da União. “Ricardo Leyser é um senhor executivo”, diz ele. E o Sr. Sérgio Cabral? Com aquela postura arrogante acendendo o charuto? Um baba-ovo do presidente. É essa corja que vai tomar conta. Os grandes intere$$eiros que a cidade funcione do jeito deles. É uma vergonha, como diz Boris Casoy.

Assim como os paulistas estão com raiva, e se mordendo de raiva com as atenções voltadas ao Rio, eu também gostaria que essa olimpíadas fosse pra lá.

Abraço.

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O tempo

Setembro 21, 2009

Há um mês, algumas coisas que não pareciam mudar mais e que estariam entrando no eixo, se foi. Houve uma ruptura no tempo que arrebentou toda a costura e que agora está difícil de emendá-la novamente. Conquistas frustrantes. Despedidas sem despedidas. Ah, o tempo! Deveria ter uma forma de juntar os buracos e enfiar a linha e a agulha para que o pedaço desse tecido seja tecelado  novamente. Nem que temporariamente.
Assistindo a “Drácula de Bram Stoker” essa semana, refleti muito sobre isso e comecei a filosofar sobre o personagem. Concluí que o personagem (nessa versão lindamente interpretado por Gary Oldman) tinha suas razões para renunciar a Deus. O conde matou muçulmanos em vão. Esteve longe de sua amada por anos. Tudo isso a favor de Deus. “Será que nesse pedaço de tempo, Deus não evitaria grandes dores de cabeça, para ter um problemão durante quatro séculos, sujeitando inocentes (quem é inocente?) a desvirtuar um caminho normal?”. Acho que foi esse o mote que Bram Stoker teve quando escreveu a história. A obra trata mais de religião, amor e tempo do que seres malignos possuindo pessoas em troca da eternidade. Grande homem deveria ser o Bram Stoker. Acho que até hoje ele deve estar rindo das pessoas que acreditam na lenda da história que ele escreveu em momentos de desilusão.
Mas, voltando. Se o tempo não fosse tão rude com as pessoas, muitas coisas deveriam ser evitadas. Isso só me leva à conclusão de que arrependimento não existe. E sim, a falta de um dispositivo como o ‘restart’ em nossas engrenagens.
O tempo te dá e tira com a mesma satisfação. Os bons momentos. As épocas ruins. É muito comum a pessoa, quando não passa em um bom momento na vida, recorrer a um momento frustrante que ele apenas ri e sente saudades. Eu sinto isso todas as vezes que sinto uma grande decepção ou quando um pedaço é arrancado do coração. Um dia desses senti saudades do ano passado, que, consequentemente, senti saudades de outro ano que não passei pelos melhores momentos. Acho que isso é sadio. É o momento de analisar o quanto você pode evoluir.
Conversava com uns ex-colegas de trabalho nesse sábado e eles perguntavam se eu ainda continuava a escutar “aquelas músicas toscas” e indo ao cinema para ver “aqueles filmes toscos” e se eu ainda continuo bebendo “aqueles drinks toscos”.

- Você não muda, heim, seu retardado?, dizia um deles. E continuaram aquelas velhas lembranças desbotadas.

Não senti muitas saudades daquele tempo, exceto das dificuldades e das reuniões sado masoquistas que tínhamos que ouvir todas as segundas. “Que alívio!”, pensei. Graças a Deus passei por tudo isso. E que não se repita mais. Mas…bons tempos eram aqueles em que, mesmo com inúmeras dificuldades, tinha força para rir e continuar. Hoje eu trabalho em casa e tenho dois patrões: o computador e minha mãe, que põe o almoço na hora que ela quer.
No fim desse último domingo estava pensando no mês de abril, que foi a última vez em que vi um amigo, que subiu nesta quinta. Seu corpo foi encontrado um ou dois dias depois. Não conseguia a acreditar numa morte brutal e pensar na mesma pessoa que me convencia a ler filosofia e me falar das ex-mulheres. Fiquei pensando na última vez em que falei com ele pessoalmente. Era num café da Saraiva e as pessoas que nos acompanhavam eram inusitadas. E o tempo desbotou muito desde a última vez. E vejo uma neblina, uma maresia que poluí aquele momento. O tempo é mesmo injusto. Talvez a única maneira de respeitá-lo e parar de reclamar dele é colar um chiclete nos ponteiros da mente e continuar andando sempre em sua frente, pois ele escapa facilmente.
Abraço.

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Para deixar vocês confusos como eu

Setembro 9, 2009

O velho chiado do vinil. Era disso que faltava para mim em tempos turbulentos e desesperançosos. Por isso fui para a minha livraria predileta: a “Baratos da Ribeiro”. No momento, o dono, Maurício, não tocava nenhuma “omelete giratória musical”. Me contentei com uma seleção de Lou Reed num CD feito para tocar na loja, mas não resisti olhar para a sessão do “Rock 70” e ver os discos de Leon Russell. Eu e meu amigo Tadeu já estávamos com nossa compra embaixo das axilas, respectivamente dois livros. Ele, “Azaléia Vermelha” de uma autora chinesa, e eu “Política” de um autor irlandês, Adam Thirwell. Mas quase não resisti levar todos aqueles discos do Leon, Elton John, Neil Young e etc. Que vontade de levar um disco do Cream!

“Consumista. É isso que eu tenho andei sendo nos últimos dois meses”, pensei. Me controlei e me perguntei onde iria tocar aquelas maravilhas. Melhor deixar para as pessoas que tem como executar aquelas maravilhosas cantos dos Deuses. Mas…porque ficar pensando nisso? Resolvi sair no dia seguinte para comprar um aparelho, nem que seja um 3 em 1 antigo da CCE. Me dirigi até o centro da cidade para ver se achava um.

Em todas as lojas em que eu aparecia, a impressão que as pessoas tinham de mim era que estavam de frente de um DJ. Não me incomodo nem um pouco com isso. Até gostaria de ser um dia. Não faria feio, faria?

Circulando, entrei numa loja de fundo de quintal. Creio que pertencia ao velhinho que dormia no balcão, com um gato que fazia o mesmo e um rádio que tocava um desses especiais do Roberto Carlos na AM. Ele me olhou como se eu estivesse atrapalhando seu sono e me perguntou: “Pois não?”, “Você tem som 3 em 1?”, perguntei. “Só esses aqui que estão em conserto”, disse meio sem paciência. “Obrigado”, respondi e fui embora.

Onde estão as pessoas que escutam música nesse mundo? O que aconteceu com o Rio, onde as pessoas enchiam as lojas de CD ou os donos das lojas de aparelho de som que faziam de brinde a filha ninfeta se levasse aquele som encalhado? Não existe. Cheguei a essa triste conclusão.

Depois de uma boa caminhada pela Praça Tiradentes, resolvi parar na Rua do Ouvidor para beber um matte gelado. Após acender um cigarro, um rapaz de cabelo comprido e roupa social me pediu para acender o dele. Ele olhou para mim e perguntou: “Ei, você não estudou no Brasileiro?”. Respondi que sim. “Você não era aquele gordinho que escutava música com o beterraba?”. “Bem, agora magrelo. Mas sim, sou eu. E você…?”. “Eric!”. “Ah sim, me lembro”. Eric era um chato, que insistia que jogava muita bola, mas sempre perdia todas as bolas para mim. Insistia que era o bad boy da nossa turma, mas levava aqueles copos plásticos de merenda com Nescau na hora do lanche. Insistia para mim e o beterraba levarmos para o Garage, mas sempre dávamos uma volta nele. Depois ele se tornou amigo do beterraba, quando eu estava de saco cheio de escutar Ramones e fazer barulheira num porão. Eric. Isso é nome de gente chata.

Ele dizia que estava procurando emprego e eu disse que eu não estava em situação diferente. Que foi mandado embora, depois de ter chegado bêbado no escritório e xingou seu chefe (Hum, olha o bad boy aí de novo).  Ele me perguntou se eu ainda estou fazendo música e que se eu tivesse uma banda chamaria ele, que toca teclado. O cara que só toca teclado é sempre uma mala. Disse que não, que me formei em jornalismo e tenho me envolvido com cinema ultimamente. E me fez inúmeras perguntas sobre cinema brasileiro. Depois de meia hora, fiz de tudo para não ir para ao mesmo lado dele e seguimos nossos caminhos.

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No dia seguinte, eu estava em casa na parte da manhã escutando 461 Ocean Boulevard do Eric Clapton e lendo notícias de música na internet. Soube que Iggy Pop vai lançar seu próximo disco na internet, que o CD não vale mais nada para ele. A outra notícia era: a fábrica de vinil no Brasil está quase pronta. Só faltam certos detalhes. Eu fiquei pensando sobre isso. Se a internet é levada a sério, o CD não vale nada, como diz o Iggy, e o Brasil está querendo seguir o mundo que ainda compra vinil…qual é o rumo da música no futuro? O vinil mais valorizado que o CD e a internet ser a principal alicerce da música. É essa a conclusão que chego. A mesma de qualquer um que tem um pouco de noção de informação. E todas aqueles idiotas do “Ídolos” que diz que quer ser ídolo no Brasil e ganha, como prêmio, gravar um CD? Além de ser controlado pelas gravadoras e ainda não vai vender, por que o CD não vale mais nada. Qual é o significado para eles ser esmagado pelo insosso mercado fonográfico brasileiro atual?

Me peguei pensando tendo uma gravadora virtual. Acho que isso seria importante. Dar total liberdade aos músicos e, se quiser, lançar 40 músicas num arquivo só e fazer uma turnê com esse show. Ganharei dinheiro. $$$$$$$$$$ Pensamento podre o meu. É porque eu ando precisando dele.

Depois disso, fiquei pensando na pergunta sobre banda do mala do Eric. Eu ainda era visto como o cara da música. Me parecia que ainda não havia evoluído. Não, evolução veio sim, isso sou eu em momentos de autoflagelação. Mas o que não me escapa da cabeça era essa a idéia de que a música é um signo dessa minha vida. Balancei a cabeça e apaguei esses pensamentos. Sentei para escrever esse post que não tem a menor linearidade.

Abraço.

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Medo

Agosto 11, 2009

Ultimamente as pessoas tem andado com medo. Medo de tudo. Até de sair de casa. Eu também tenho andado com medo de inúmeras coisas. Aquelas que de repente me toma por um momento de desespero, assumindo meu corpo, fazendo-me suar, queimar, ficando vermelho a ponto de explodir. Acendo um cigarro, fingindo que aquele pedaço de papel com fumo dentro pode ser a solução dos problemas. Eu acredito que o cigarro tem sido meu valium nos últimos anos. Mas quando começo a fumar sinto que tenho medo da traqueotomia, enfisema pulmonar e outros problemas cardiológicos e por isso fumo novamente para me acalmar.

Ontem li a coluna do Zuenir Ventura e ele falava sobre…medo! O medo de ler sobre o medo já me deu medo! Mas, superei o medo, e, sem medo, não tive medo de ler. Medo! Tem pessoas que nem tem ido ao shopping, porque a gripe aviária, opa, esqueci o bicho, suína, tem se alastrado por todo ambiente. Esse vírus me lembra a cena de Os Dez Mandamentos de Cecil B. De Mille quando uma fumaça verde, a praga, mata o primogênito. Vejo este fenômeno, que de divino não tem nada, percorre todo o caminho e fica escolhendo a quem vai matar. Ele observa e pensa: “que tal aquela vendedora feia da Cacau Show? Hum, não. Aquela mora em Rocha Miranda, sofre demais andando de ônibus e a UPA (neguinho na estrada) não deve ter chegado lá. E aquele gordo aristocrata ali almoçando no Viena? Não, já matei ricos demais e vão achar que eu sou preconceituoso. Opa! Tem um morador de Realengo ali! É nesse que vou! Ihuuuu!”.

E esse é uns dos medos que eu tenho sofrido regularmente. Realengo. A última vez que recebi um email dela foi a 8 de julho. E eu tenho sofrido com esse silêncio. Passou um mês e eu continuo sem saber nada sobre ela. “Desejo toda a sorte do mundo”. Esta foi a última frase que li dela: “Desejo toda a sorte do mundo”. Isso eu não tenho engolido. Sabe Deus o quanto eu tenho rezado por ela. Como faço urucubaca para o telefone tocar e ser ela. Para ela se reerguer. Eu tenho sido o maior egoísta do mundo por não entender isso. Ela quer se manter distante. Distância de mim (isso eu tenho certeza), do mundo, de sua maior paixão que é a música, e, enfim, da vida. O medo toma conta de mim! O que pode ter acontecido depois daquele email desastroso e negativo? Será que sua família me contaria algo se acontecesse a ela? A quem eu deveria perguntar? Não tenho contato com ninguém ao seu redor. Fico angustiado todas as vezes que abro minha caixa de email pensando em algo terrível. E este medo mistura-se com a esperança de um email seu: “estou bem! Vamos nos ver?”.

Eu tenho sido egoísta o suficiente por pensar que a recuperação dela surja com uma participação minha. Eu não nego. Mas talvez eu fosse aceitar que ela pudesse ser feliz mesmo que não estivesse ao meu lado. Quando estou em casa olhando para o teto (raríssimos momentos), meus pensamentos são malignos, negativos às vezes. Penso em algumas coisas sem nexo. Surto, entro em estado de esquizofrenia e algumas imagens oníricas sobrevoam esta mente preocupada. Meu caráter oscila em dois pontos: o de Santo e de um obsessor sem caminho de volta pra casa. Eu tenho pensado na hipótese que isso tudo é apenas obsessão. Um vaso em que enterrei uma semente e rego todos os dias, mesmo sem sucesso há anos. E essa semente foi plantada já um tempo. E não tenho colhido absolutamente nada. As pessoas me falam para não regar mais, seguir em frente. E assim seja. Seguir em frente. Fácil, hã?

Lendo a biografia de Eric Clapton, já começo esboçar um pouco a minha vida se ela estivesse perdurando um tempo após o nosso distanciamento. Isso me dá calafrios. Já não me bastassem algumas coisas que haviam passado na minha vida aquele tempo. Mas gosto de pensar que entreguei uma obra para ela. E é exatamente aí que a vida de Clapton pode se encontrar com a minha. Ele diz que quando acabou de fazer “Layla & Other Assorted Love Songs” com a banda Derek and the Dominos em 1970, ele sentou-se com Pattie Harrison no estúdio e mostrou todo o álbum feito para ela. A obra é tão perfeita, tão bem amarrada que, ao invés de lançar, deveria ter posto todas as músicas naquele saquinho de confeitaria com os dizeres “Feito Com Carinho” e entregar a ela. “Faça o que quiser. isso é seu”. Isso seria típico meu.

Na música “Little Wing”, a regravação de Hendrix é tão explosiva que explode todos os sentimentos e o sangue escorre por cada nota musical. Quando escuto a música pelo Aterro do Flamengo e as seguintes frases: “Well she’s walking through the clouds/With a circus mind that’s running ’round/Butterflies and zebras, fairy tales/That’s all she ever thinks about” sinto que ela está ao meu lado. É dessa forma que gosto de lembra dela. E a ansiedade de pegar o telefone e perguntar como está, é enorme. Alguém pode atender por ela. E aí o medo percorre nos meus pensamentos. Sua voz pode explodir meu estômago e o ar não vir. Ainda não estou tão preparado para me chocar.

Abraço com medo.

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Tenho uma camisa escrito: Eu sou um idiota!

Julho 13, 2009

Para pessoas que insistem neste assunto.

Me recordo em agosto de 2001 quando entrei para a faculdade. Tinha inúmeros sonhos, como qualquer garoto que queria fazer diferença num país em que não apoia ninguém e pensa em mudar a concepção do país do atraso das coisas básicas que todos os povos tem direito; o mofo das velhas idéias e da redundância, os acadêmicos que até ali marcavam suas bundas nas velhas cadeiras e que só bebiam chá e babavam nas poltronas acolchoadas.

Um mês depois que entrei, as torres gêmeas caíram, causando o maior frisson no mundo midiático e grandes informações e explicações – por vezes, até, consciente e parcial – para pessoas que não faziam idéia do que aquilo significava. Eu mesmo me sentia perplexo, para alguém que apenas visava música e cinema. Com muita competência e equilíbrio, uma parte da imprensa foi bastante inteligente e distinta até nas opiniões. Outras, digamos, de certa forma evasiva.

O jornalismo me fisgou naquela época. Tudo que ele deveria me dar, aproveitei: opinião, mais contestador, ódio e a arte de enganar as pessoas falando a verdade. Este último, apenas na profissão, que é tão obrigatório quanto uma característica para advogado e médico. Descobri que lindas apresentadoras como Patrícia Poeta eram mais burras que imaginei e a esperança que uma Renata Fan tem mais do que apenas – e que apenas! – belos peitos e olhos azuis. Foi com o jornalismo que passei a acreditar em Deus. Apenas ali vi o quanto somos imperfeitos. Mas…o que é realmente um jornalista? Recorremos ao mais básicos de todos:

Jornalista: sinônimo de mentiroso, sujo e que tem que dizer a verdade. Que características mais complexas e contraditórias essas, não? Acho que deve ter muito para ser tudo isso. Quantas “desqualidades” uma pessoa deverá ter para ser tornar um jornalista? Escrever num blog? Contar piadas? Não é apenas que o “pai dos burros”, o Aurélio diz: “Pessoa que dirige e redige um jornal ou que dele é colaboradora”.

A definição do Aurélio deveria ser: “Sub. 1. Quem escreve o que quer, da forma que quer, da mesma forma que se presidia um grande estado; 2. Escrever errado, modificando todas as regras da língua nativa de forma negligente. 2. Macaco de imitação do Tio Sam, que nem isso soube fazer.”

Pois tudo isso acabou.

Como todos sabem, uma nova lei foi sancionada no planalto. E o que é feito para não acabar, dá adeus, ao contrário dos pensamentos retrógrados e pensamentos esmaecidos.  O jornalismo morreu, Sarney não. O jornalismo morreu, uma extensa diferença de classes, não. O jornalismo morreu, as ruas pintadas de verde e amarelo nas copas, não. E vocês devem estar pensando que eu estou chateado e queimando de raiva. Pelo contrário, estou rindo à toa. Bem feito! Desculpe-me quem lutou contra tudo isso. Sugiro que fique ‘porraqui’.

Voltando, ano passado um amigo do sindicato do jornalismo me sugeriu assinar um abaixo assinado sobre a causa. Aceitei, claro. Estou tão comovido e envolvido quanto eles. O abaixo deveria pagar R$25,00 para chegar nas mãos do Gilmar Mendes, em Brasília, como um apelo! Porra, eu vou pagar para não tirarem o que é meu? E do que isso adiantaria? Porque ninguém juntou todo esse dinheiro e resolveu criar uma forma midiática que pudesse ser contra tudo e contra todos que quer excluir uma classe que luta pela verdade? Pelo que soube, foram mais de 400 pessoas que assinaram. Vamos supor que foram 439 pessoas. Isso dá: R$ 10.975,00!!! Esse dinheiro todo para mandar uma carta? E para onde foi esse apelo? Onde apareceu essa carta? Será que nenhuma redação resolveu apelar para isso?! Se teve que apelar para lobby, já começou errado, já desconjurou suas palavras no dia da colação de grau. E outra: dez conto não é o suficiente para subornar alguém em Brasília. Isso não paga nem o cafezinho da tarde. E porque, eu, desempregado de toda essa putaria rondada pela imprensa, desempregaram milhões de pessoas formadas, deveria lutar por eles? Porque eu deveria tomar as dores da Cristiane Pelajo? Dos picaretas das redações minúsculas que só querem se aproveitar das estagiárias e da graninha das propagandas de politicagem? Porque eu deveria lutar para pessoas que não deram a mínima por mim, por você que está lendo e daquele seu sobrinho desiludido achando que vai se dar bem na prova da Globo, onde o imenso auditório esgota-se de mentes positivas que vão se dar bem na escrita e não o suficiente para ganhar da carta marcada?

Que me desculpem, estou me lixando! Eu sou jornalista por alma e não no número do diário oficial, do carimbo na minha carteira de trabalho e nas matérias irrelevantes, onde tinha que passar a caneta hidrocor por cima das respostas da prova. E eu nem me considero jornalista, já que boa parte de muitas pessoas bateram a porta na minha cara. É menos um aliado. Porque vocês quiseram isso. Se esta Gomorra não tivesse sido realizada, a história deste texto seria outra. Procurem outro.

Abraço.

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Nova Manhã

Maio 29, 2009

Foi por volta das 9:00 da manhã que o ônibus deu uma boa arrancada. Eu ansiava por aquele início de sensação como um viciado aguardando as primeiras goteiras de heroína na veia. Um ônibus que seguia para Goiás esperou o meu, que ia para Petrópolis, passar gentilmente a sua frente.  Demorei aproximadamente 5 minutos para construir a idéia que estava saindo da capital. Ainda via barracas de churrascos e doces, os ônibus que circulam nos lugares por onde ando, os pedintes trabalhando, um funk ainda batucava timidamente de longe em uma manhã agradável e um sujeito à minha frente falava alto ao celular. Peguei meu mp3 e coloquei às alturas um álbum programado para ouvir nessa viagem. “New Morning” de Bob Dylan, álbum de 1970 que contém músicas sujas e de quintal. Um disco esquecido por fãs e crítica que era para fazer parte da peça Scratch de Ian Mac Leish e não foram aprovadas pelo próprio. Sorte minha, pois é meu álbum predileto de Dylan.

Músicas como “Day Of The Locusts” e “Winterlude” balançavam-me como um balé de acordo com a suspensão a ar do ônibus e eu avistava, no meio do engarrafamento da outra pista, a baía de Guanabara. A droga começara a fazer efeito.  ‘Singing for me!’, cantava Dylan e eu repetia num sussurro.  Uma sensação de liberdade, o desapego aos problemas e a resistência de não ver pessoas indesejadas começava a correr nas minhas veias sanguíneas. Chegou um momento que, por pouco, não chorei. Porque eu não fiz essa viagem antes? O leitor deve estar pensando que o escritor deve ser um sentimentalóide que não controla suas ações. E acertou!

Cheguei rápido a serra. O ônibus deu um solavanco e engrenou numa curva que intimida os mais corajosos. Vi as suas rodas girarem e a máquina de suas engrenagens reagirem de acordo com as necessidades da estrada. Agora me via no topo. Grandes vargens, um céu límpido e simpático me atraía como campo magnético. Meu celular estava fora de área, então poderia esquecer que já não existia vida nos passos anteriores. A faixa título de New Morning ecoava nos meus ouvidos. Nunca uma obra escrita por mim – Onde O Sexo É Negro – esteve tão perto.  Aquilo me deixou animado.

No meio da serra vi uma loja de piscinas, móveis, um bazar daqueles que se vendem até a mãe, uma igreja Batista, uma corretora e uma serralheria. Pensei numa garota nessa altura do campeonato. Gostaria que estivesse comigo nessa hora. Abri a mochila e filei um torrone que comprei na rodoviária e deixei que o sol, no topo da montanha ofuscasse meus olhos e reluzissem meus óculos. Olhei para os lados e as pessoas dormiam, conversavam pelo celular e olhavam penetradamente nas folhas. Eu estava em uma situação diferente das delas. Não havia nada em nossas frentes. Apenas uma longa estrada e casas gigantescas de eremitas. Senti certa inveja deles, devo dizer.

Cheguei em Petrópolis por volta das 10 da manhã. A minha amiga ainda não havia chegado e eu resolvi encostar-se a um carro e acender um cigarro. Talvez a melhor música do álbum começou a tocar naquele momento “The Man In Me”. Me lembrei de Dude de “O Grande Lebowski”. Enquanto o Rio de Janeiro estava em plena ebulição, eu chegava numa cidade fria e vazia de pessoas pelas ruas.

Dez minutos depois ela chega e buzina e nos cumprimentamos alegremente. Já fazia um bom tempo que não nos víamos. Creio que foi três anos atrás e nesse meio tempo muitas coisas aconteceram.

A sua casa é muito bonita, colonial, janelas venezianas como casas de praia. Há um jardim com flores e anões com uma Branca de Neve. Aos fundos, vemos uma graciosa serra e o sol que reluzia suas plantas. Um adorável cachorro. Por dentro, um ambiente bem agradável. Lavei as mãos e a água parecia penetrar nos meus ossos. Nem o sabonete líquido conseguia quebrar o frio que fazia.

Depois de rodarmos de carro, estacionamos em frente à Catedral e fomos andando pela cidade. A Avenida Central, que é similar a uma Avenida Ataulfo Alves, e logo à frente semelhante a uma Nossa Senhora com lojas de nomes esquisitos. As pessoas andavam pelas ruas como se estivessem andando por esteira. Paramos para fazer uma refeição num restaurante mineiro e depois um expresso numa cafeteria com biscoitinhos finos.

Após o almoço andamos pelas ruas históricas e cruzamos com um palácio de um Conde. A história diz que ele fez a arquitetura para sua esposa. Em outras das casas, que entramos desta vez, é um museu que a prefeitura o fez para visitas e onde há um restaurante com velas nas mesas e tocava uma música parecida como daqueles Romances em Durango. Mesmo ainda em construção, parecia um palácio vivo com janelas bonitas e escadas com degraus históricos.

Sentamos num banco da praça para sentir o frio e calor que insistia em não se decidir, e conversamos umas horas. O tempo para visita não ajudava tanto, pois já fazia um frio e eu estava apenas com um pulôver, o que era insuficiente para o frio de lá. Fomos comer numa padaria tradicional, compramos besteiras para comer e era hora de ir embora.

No caminho da rodoviária senti uma sensação incômoda. Não sabia o que era. Era como se eu estivesse me olhando num espelho onde não refletia minha imagem e mesmo assim conseguia me ver.

Quando paramos o carro na rodoviária, nos despedimos, dei boa sorte para ela e o bebê e disse que voltaria vê-la com mais freqüência. Peguei o ônibus que iria sair em cinco minutos. Desta vez voltei escutando Prince no meu mp3. Uma linda loura que estava sentada ao meu lado não queria conversa. Fazendo o caminho inverso, muitas coisas passaram pela minha cabeça, que chegava a doer. Quando meu ônibus posou como uma mosca em frente a UFRJ e vi um enorme engarrafamento, entendi o mal estar que estava sentindo. Era a volta. No momento em que pus os pés em São Cristovão, o efeito da droga passara. A realidade voltava. As pessoas voltavam. E eu retornava para a minha casa.

No lar, sentei-me na varanda para comer os biscoitos que comprei com café que acabei de fazer e liguei o som para ouvir um velho disco de Donovan. Um vento nostálgico batia em mim. Um vento bom, com diretrizes. Senti que uma nova manhã abria para mim.

Abraço.

P.S. CAMPANHA VOLTA LEKA!!

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Adeus, ontem.

Abril 16, 2009

Uma das minhas passagens prediletas em um livro é em “On The Road” de Jack Kerouac, que diz:  “Que sensação é essa de estar se afastando das pessoas, até que delas, ao longe, na planície, você só consegue distinguir minipartículas, dissolvendo-se na vastidão do infinito? – é o mundo que nos engole, é a despedida.”.

Independentemente do ‘American Dream’, gosto de pensar que Kerouac teve a mesma sensação que a minha de que nunca mais poderia encontrar uma pessoa ou a mesma pessoa. Eu opto pela segunda opção. A vida nos rodeia com tantas formas, dilui-se com o vento e nos sopra novas notícias, novos ares. Tenho me despedido de muitas pessoas, inclusive de mim mesmo. Desconhecemos o tão antigo conhecido do espelho. Não tenho vergonha de dizer isso para mim mesmo. Semana passada mesmo me disseram: “você está muito bem! Apesar de estar com menos cabelo”.  É, acho que eles dissolveram-se com o mesmo vento que tem soprado há um bom tempo.

A impressão que tenho, quando me encontro com certas pessoas, é que ou estou falando com algum político rival que está prestes a cessar uma rixa nacionalista ou com alguém que tenha voltado da guerra do Vietnã. Você espera frieza daqueles que não faziam questão de falar com você e uma excitação daqueles que estavam no seu dia-a-dia. É exatamente o contrário. Será que as pessoas que o tratavam com certa nevasca tomaram vontade ou coragem para expressar uma mútua admiração ou as pessoas que, calorosamente, encontram o inferno do seu passado condicionando-se à você?  Nem sempre.

Algumas pessoas tem me mostrado o contrário. Tem certas coisas que não mudam, como um crepúsculo ou um sol pós-chuva. O que é realmente bom, não muda. Permanece firme e, engraçadamente, ereto.  Elas permanecem à vontade, como se estivesse presente desde ontem. Querem te contar o que exatamente se passou durante todo esse tempo e quer manter o tempo perdido. 

Entrava um dia desses em uma loja de CD em que eu freqüentava para comprar o novo álbum do Bruce Springsteen, e as pessoas me receberam tão bem que me deram até café e todos me escutavam, como crianças esperando que um presidente conte uma história infantil, o porque do meu desaparecimento. “Estava na caverna, é por isso que estou de barba”. Eles riram, embora eles não soubessem que estive mais ou menos em uma.

Todos tem me visto. Minhas visitas não tem sido daquelas de médico ou de necessidade. Antigos colegas de trabalho. Pessoas que achava que nunca mais veria. Amigos que se encontravam todos os dias e bebiam freqüentemente. O Photoshop, o Corel Draw. Tenho passado entre eles não só para apenas dar um alô. Algumas coisas são imutáveis. E torço que a essência não acabe. Esforço-me para isso.

Se ausência fosse um problema, não existiria amor e amizade. Alguns sentimentos congelam, mas nunca se perde o encanto. No momento em que se dissipa, é porque algo já havia de errado antes de se afastarem. Claro, mudanças entre as pessoas sempre existe. Como disse antes, todos os dias nos despedimos de nós mesmos. Assim é o roteiro da vida. As mudanças sempre há de surgir. Seu modo de reagir numa briga, opinião política, restauração na forma de agir e refletir durante um embate profissional e/ou amoroso, e até de um certo cantor, filme ou algo do gênero. Opiniões sempre estão sujeitas a mudança. Foi assim que mudei em relação ao Romário quando retornou ao Vasco em 2000. Fazer o que?

Hoje saboreio algumas coisas que fizeram meu bem estar há alguns anos, como mexer em algum programa gráfico ouvindo Prince, ou beber no mesmo bar com as pessoas antigas e comer a boa e velha sardinha frita no Tramela, procurar um CD usado de cinco reais de alguma banda britânica da década de 90 e sentar no mesmo concreto reservado em São Januário para ver 22 mulambos correrem atrás de uma bola. Isso não me soa como nostalgia, mas como o frescor de novos tempos. Um adeus a mim mesmo.

Abraço.

 

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Randy “The Ram” Robinson é como todos nós

Março 19, 2009

 

Essa semana pós-Oscar, assisti à “The Wrestler”, intitulado aqui no Brasa como “O Lutador”. De todos os filmes que concorreram à estatueta, era esse quem eu mais queria assistir. O filme de Darren Aronofski teria sido para mim a maior lição e fundamento de vida do que o filme de Danny Boyle passado na Índia. Lembrando que ainda não o assisti, mas se tratando do diretor de “Transpotting” e “A Praia” – filmes que estão com certeza entre meus prediletos – tenho certeza que vou amar e concordar que teria levado o maior prêmio de marketing cinematográfico.

Muitos se falavam de “The Wrestler”, que era a ressurreição de Mickey Rourke, o que discordo, já que as sua atuação em “Sin City” é tão forte quanto a de “O Lutador”. Creio que ali teria sido o seu renascimento, já que em “Death Proof” de Tarantino foi substituído por Kurt Russel, por atrasos e ausências no set. Rourke é uma figura singela e o que de melhor veio da década de 80, que logo perderia esse posto por Johnny Deep. A primeira vez que vi Mickey foi ao quente “9 ½ semanas de amor”, pois estaria ali Kim Basinger. Uma química que logo foi obstruída por Keanu Reeves/ Sandra Bullock, Di Caprio/Kate Winlet, Brad Pitt/Angelina Jolie, entre outros. E era essa a maior maldição que Mickey Rourke sustentara durante anos: o substituído. Basinger casou-se com Alec Baldwin e se tornaram queridinhos em Hollywood. Nos anos 90 o cinema exigiu casais que não houvessem química para se adequar às suas histórias, nos anos 2000, pós Sr. E Sra. Smith, vimos Pitt e Jolie estarem em uma casa de ferreiro, que a qualquer momento poderia ter sido estourado, eram adorados pelo público e imprensa. E quem perdeu nisso? Ele mesmo.

O início do ator chegou logo ofuscando o brilhante William Hurt em “Corpos Ardentes”, logo impressionando professores da Actors Studio e em seguida roubou a cena protagonizando no clássico “O Selvagem da Motocicleta” de Coppola, onde havia astro como Dennis Hopper, e novos jovens atores como Matt Dillon e Diane Lane. E olhem bem para Dillon e para Rourke hoje: Dillon ainda protagoniza comédias românticas, enquanto Mickey tem feitos personagens sujos e decadentes, como no já citado “Sin City”, “Era Uma Vez No México” também de Robert Rodriguez e em “Domino” de Tony Scott. E por onde andaria o último James Dean e Marlon Brando que tanto Hollywood gostaria de encontrar desde a década de 60? Nunca mais, meus amigos empresários, nunca mais. Mickey Rourke era a solução. Não via uma interpretação de Rourke tão soberba desde “Homeboy” (quem nunca viu esse filme, 10 conto na Americanas, pode ir lá), onde interpreta…Mickey Rourke. A fita, mesmo dentro das velhas histórias de pugilismo, ele dera o passo que viria ser o seu pântano, a reconstrução do seu pior inferno e conseguiu pôr uma trena entre ele e produtores, agentes e estúdios. O que fizeste Rourke?

Voltando a ”O Lutador”, haveria inúmeros motivos de assistir a um filme como esse, fora o fato de um dos meus atores prediletos estrelar, conta com um dos melhores diretores independente americano (ah, esses filmes brasileiros, sabe? Todos querem ser o Aronofsky. Pergunte a qualquer um deles), Marisa Tomei (ainda mais interpretando uma Stripper), é sutilmente grotesco e sangrento, tem a maravilhosa música original de Bruce Springsteen (intitulado The Wrestler), apreensivo e não tem menores rodeios a favor dos piores incentivos que o ser humano deveria seguir, onde uma ‘insuperação’ é irredutível e que é impossível lutar contra ela.

Vocês querem uma breve sinopse ou estarão com preguiça de ir ao Google? Tá bom, tá bom, lá vou eu: Ram, um lutador profissional daqueles espetáculos de luta livre, decadente e ainda querido pelo público, sofre uma parada cardíaca e é obrigado a parar de lutar. Com pouca grana e solitário, obriga-se a assentar a sua vida, tentando uma vida a dois com uma stripper e se reatar com sua filha, , que passou a vida sem dar a menor atenção, enquanto trabalha no balcão de supermercado como complemento salarial. Satisfeitos? Ok, então vamos.

Acho que quem me conhece bem, sabe o porque de assistir um filme como esse. Sou fascinado por personagens errantes, autodestrutivos e anticonvencionais. Mas devo dizer que este filme é tão intrigante, que, para quem o acha um bom filho da puta desde o início, não se enganará e vai morrer assim. E é desta forma que gostamos de Ram, pois o aceitamos como ele é, pelas atitudes, costumes e fraquezas. Sabe, ninguém é obrigado a ser melhor para a sociedade e mudar o que você é. E, para mim, é o maior propósito do filme. Você nasce filho da puta, aprende a ser filho da puta e morre da mesma forma. Quando usamos o clichê de “aceitarmos como nós somos”, não é a deficiência física ou defeitos pessoais, e sim como você é. Muitos são teimosos, complacentes, tem pavio curto, mas não somos as mesmas pessoas. Somos produtos de nós mesmos, ninguém escolheu ser assim, nem força sobrenatural, nem sociedade, nem criação, nada…somos o que somos por queremos ser assim. Pois escolhemos ser assim, mesmo se não tivermos escolhas. E Ram escolheu o seu destino, o seu próprio produto do subproduto. Ele não é lutador porque é um guerreiro ou agüenta qualquer tranco, e sim porque ele quer ser lutador e onde ele escolheu o seu lar. Ninguém poderia mudar seu destino.

Quando eu era criança vivia assistindo a essas lutas. Esses espetáculos me cheiravam a pizza caseira, coca-cola de 1 litro em garrafa, mousse de chocolate e SBT. Descobri ali que tenho o pavio mais curto que imaginava, que eu era uma possível evolução dos macacos, que o freak Show desses homens era o que mais os seres humanos quisera fazer em toda a vida. E que Mickey Rourke fez em toda a sua vida. Por apanhar do padrasto, ser largado pelo pai, teve que se adequar com a violência e arrogância, uma cápsula do Eu. Ele (Rourke) teve escolha. Poderia ter sido alguém, como quem escreveu esse texto ou a você que o está lendo. Mas essa era a escolha. Talvez essa seja a ironia da arte, pois ela chega a você. Ela te escolhe. Sem isso, Mickey não teria sido o próprio Ram. E Ram nunca teria chegado a mim, que chorava como há muito não teria acontecido após ter visto um filme.

Pensei em Ram nesses dias, lembro-me um pouco dele. Para dizer a verdade, nem sei se ele é real, não procurei saber, mas não importa para mim. O que importa é que ele existiu durante duas horas em minha vida.

Abraço.

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O Homem primata arrastava Eva pelo cabelo

Fevereiro 11, 2009


O que representa a religião para mim? Uma abdicação de sentimento, um vaporizador de reflexão ou, como todos desejam, um casebre bonito, simples e tranquilo no paraíso? Lia a Veja dessa semana e a matéria de capa sobre o paralelo entre a teoria de Adão e Eva e a de Darwin, e ainda não conseguiram chegar a um denominador comum. Mas é impossível os dois entrarem, já que nenhuma das duas peças juntam-se. Em quem realmente acreditar? Na sagrada palavras bíblicas, que como todos sabemos, devemos prestar muita atenção, já que o sagrado livro é igual a mensagens de “biscoitos da sorte”, como no filme Je Vous Salue, Marie de Godard. Ou num barbudo, que vivia estudando numa casinha na insossa Londres do século XX. A sua mulher, Elma, uma religiosa convicta, sentia um pavor só de pensar que ela e seu marido iriam estar separados pela eternidade, pois acreditava que ela iria para o céu e Darwin fosse trabalhar numa birosca do diabo depois que partisse. E quem disse que os ateus não vão para o céu? Ou melhor, quem disse que religiosos não vão para o inferno? Ou, melhor ainda: o que representa o céu e o inferno?

Já era por volta das 2:30 da manhã de sábado e eu e uma amiga pedíamos a conta num bar e fiquei refletindo sobre isso quando ela tinha ido ao banheiro. A nossa conversa viria ser na maioria do tempo sobre deus e religião. Quando havia me falado sobre a sua nova preferência religiosa, senti nela auto-desaprovação quando olhava para mim. Aquele olhar era também: “sim, estou agora lá, se estou enganada o problema é meu, mas eu me sinto bem”. Não gostava desse jeito que ela me olhara, já que, mesmo ter certa aversão pela doutrina e pelo segmento dogmático, fico feliz quando as pessoas chegam a um certo limite de se apossar de uma luz e esperança espiritual, seja ela qual for.

Fiquei pensando em mim quando procurava a minha religião. Já passei por inúmeras delas, menos as evangélicas, que cheguei tentar me converter num desses programas de TV na madrugada, mas o que consegui foram risadas que começaram num sorriso contido e sendo após despontada por uma gargalhada. Aquilo não me convenceu. Já fui a Messiânica, mas saía pior do que entrava com a energia que infringia em mim, naquele passaporte de problemas para problemas. E a inquietação e a sensação de que não estava fazendo nada num momento em que podia estar saindo com garotas, jogando bola e indo à praia assolava e eu me ressentia com isso. Era dessa forma que me sentia quando aos sábados à tarde ia para reuniões Kardecistas. E, depois de tentar muitas vezes, fui ao um encontro de jovens estudantis num centro Kardec em que reuniam todos os jovens da doutrina. Aquilo me deu um asco, uma claustrofobia dentro de uma câmara e certo desrespeito à própria doutrina deles. Nunca mais pisei lá quando havia farras joviais. Aquilo não era para mim. Tudo isso me afastou do principal: da procura de Deus.

A arte me procurou ser religioso e acreditar em Jesus. Assisti a boa parte desses filmes: “O Rei dos Reis”, “Jesus”, “A última Tentação de Cristo”, “A paixão de Cristo”, “O Evangelho Segundo São Mateus”, “Os Dez Mandamentos”… Se eu soubesse que iria me tornar católico com filmes, com os discos de Jorge Ben da década de 70 e livros sobre religião de escritores como Saramago, nunca teria perdido tempo em outra busca. Nikos Kazantzakis foi o mais religioso deles todos. A busca espiritual e exposição de seus sentimentos com referências à de Jesus, foi quem me deu mais esperança em acreditar na força sobrenatural e na esperança. A sua obra me fez ser católico, da mesma forma que Nando Reis só se tornou budista pois seus ídolos Lennon e etc seguiam a doutrina. Acho que ensinar e não acharmos uma identificação é maior que a paz de espírito, pois com isso, desatamos os nós da nossa vida.

Já eram por volta das 4 da manhã quando cheguei em casa e preparei um sanduíche de queijo com uma coca-cola. Coloquei “Exile On Main Street” dos Stones e pus na faixa “Tumbling Dice” direto. E enquanto os riffs de Keith ecoavam, comecei a pensar numa cena de um filme.

‘Mas que coincidência espiritual’, dizia George Clooney na comédia “E aí Meu irmão, cadê você” dos irmãos Coen, quando ele e seus parceiros (que se converteram após serem batizados) se encontram com um suposto Robert Johnson que acabara de vender a alma ao diabo numa encruzilhada para ter o poder de tocar violão.

- Oh, irmão, porque se vendeste por tão pouco?, disse um deles.

- Eu não estava usando mesmo. – disse o fornecedor de almas.

Era exatamente isso que deveria ter dito para a minha amiga. Antes de sair de casa ao encontro com ela, minha mãe havia me contado da sua nova experiência religiosa, o que contradizia totalmente a sua. Juro que quando cheguei em casa, pensei na piada dos cineastas. Balancei a cabeça para afastar esses pensamentos malucos e refleti: nunca achei que as mesmas pessoas que procuram a mesma luz, o mesmo caminho da iluminação, pudessem seguir por trincheiras tão diferentes. E o mais simples de tudo, Darwin não pensou para sacanear Nietsche: a religião não é o veneno do povo, e sim um labirinto fácil de achar.

Abraço.