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Primeiro Capítulo

fevereiro 25, 2011

Por onde você andava enquanto a sua vida era delimitada entre as frases de guitarras e baixos nervosos? É possível você pedir o perdão, a qualquer um que seja, por sua vida ter sido rock n’roll? Tudo que eu não quero é pedir perdão e voltar atrás do que eu já aprendi. Por todos os passos do submundo e de ruas estreitas e sujas, pessoas jogadas em sacos de lixo e o pior odor exalado do mundo, posso dizer que eu nunca quis estar lá. Embora, sem escolhas, o submundo chegou até a mim sem que eu quisesse em determinada parte da minha vida e aprendi muito com ele. Aprendi principalmente que não é ali onde quis estar. Enquanto pessoas filosofam sobre Rosseau e enaltecem grandes pensadores da história, sem nunca estar lá, eu precisei lê-los de forma cruel e bruta. E, de fato, o submundo não me venceu. Nunca quis ser um aprendiz de Bukowski e estar contente por sentir que ali fazia parte da minha vida. Sentei numa mesa de bar um dia desses e percebi em algumas pessoas o quanto gostavam de se sentir daquela forma. “Vocês querem o meu passado?”, era o que eu queria perguntar para aqueles três jovens que trocavam cigarrilhas de baseados. Estalei a língua e ri com ar de desaprovação, não por me sentir puranista, mas perceber o quanto as pessoas estão erradas com aquele estilo de vida.
Caros leitores, ontem senti um vento numa grama espalhada e senti estar dentro de casa com alguém que te faz te sentir em casa. Isso é muito mais especial que perceber que aquela vida de pequenas diversões não é o suficiente para a vida, é mais que isso. É perceber que existe vida. E não é tão fácil descobrir a vida. Alguém tem que apontá-la para você. É preciso coragem, fôlego para agüentar o que a vida reserva para você. E o mais importante: sentir o que a vida te reserva. E não há padre, monge, pastor, mãe-de-santo ou qualquer representante religioso que faça você seguir o rumo que você quer.
Às vezes as palavras ajudam, mas só te fazer entender não é o mesmo que sentir. Se você tem algum pecado, se tem algo para pagar, se você se veste de preto no reveilón…não importa…é muito mais fácil você lembrar pelas coisas boas que você fez e ainda faz. Um antigo chefe meu costumava brincar que “se você matar um leão por dia você é herói, mas se um dia fugir do macaco, joga fora todas as coisas boas que já fez”. Concordo com ele, esse é um mundo cruel.
Hoje não quero esquecer meu passado, mas prefiro viver o meu presente. E posso dizer a vocês que nunca me senti tão feliz de um ano pra cá. Não deixei de passar tantas dificuldades nesse meio tempo pra cá, e ainda sofro com algumas coisas, mas foi o único momento em que cheguei perto de Deus. Ou melhor, foi a única vez em que eu cheguei perto de mim. Eu tive uma imagem ou uma mensagem divina? Talvez sim. Mas não uma imagem de Cristo dentro da minha panqueca ou a imagem de Nossa Senhora em linhas nas borbulhas da minha coca-cola. Mas uma santa em que vi no altar certa vez cantando. A Santa do Amor, da Compreensão, A Santa do Despertar. Posso rezar todas as Ave-Marias e Pais-Nossos por Ela e ainda jejuar na quarta-feira de Cinza até a páscoa, mas é do pão e vinho (carne e sangue) que Ela me fez experimentar desde quando a vi. E desde então, tenho gostado do meu gosto.
Não é só da visceralidade e do Rock N’ Roll que neste pouco tempo da minha vida fora feita. E nem se quer tenho gostado disso tudo. Mas foi bom quando cheguei ao fim da linha, quem me recebeu voou até a lua comigo. Foi a melhor estação que saltei.
Bem, desculpe por esse post. Mas foi mais por desabafo que qualquer outra coisa.
Abraço.

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Pietá

novembro 12, 2010

Para quem o conheceu, sabe onde encontrar o velho túmulo. Para quem o quer de volta, é só procurar pelas luzes cintilantes que cega qualquer desesperado por claridades noturnas. Você os terá. A agenda telefônica, os livros que soltam risadas monstruosas e secas, a velha garrafa de álcool derramada pelas ruas do centro da cidade que escorre como sangue pelos ralos, alimentando novos ratos que procuram por essa comida. Eu não preciso mais dele, já me cansou só de observá-lo pelos cacos quebrados desse espelho. Desde a ressurreição, meu evangelho tem sido outro, os versículos mudaram, os mandamentos apagados e o mar morto agora separado. Dentro desse cheiro das rosas que você inala no momento, há cheiro de vida. Coloquei folhas de orquídeas no meu próprio túmulo. “Jaz alguém que ressuscitou”, escrevo num pano esvoaçante.
Qual é o significado da minha morte? A vida, essa talvez seja a melhor resposta. O que deixei pra trás agora são apenas passos que deverão ser seguidos por outras pessoas que irão me substituir, e outras que irão substituir e outras que vão anteceder meus sucessores. As únicas coisas que me restam são os sonhos. O sonho de transformar tudo que quero em realidade. Os sonhos que estão por aí, que não morrem. Todos podem sonhar, podem construir uma realidade que não são vistas pelos homens da razão. Até um mendigo pode sonhar. O sonho é a única coisa que a natureza não pode deixar entrar em decomposição.
Mas, antes de sonhar, você tem que saber onde sua mira vai lançar as balas e o alvo deverá ser coerente e real. Assim, junto com o surrealismo e a irrealidade, ele trará onde você realmente quer estar, como no novo filme do Christopher Nolan. Mas como transformar seu sonho desenhado na sua mente para que depois as pessoas observem ou a farejem? Simples: pense o que você quer da sua vida, depois nas impossibilidades de onde seu sonho esteja inalcançável e faça dela seu estilo de vida. Simples? Simples porra nenhuma! É muito difícil. Embora, se você não fizer dessa forma, sua vida será apenas umas dessas telas contemporâneas de merda, vazias e ainda sem título.
Mas…voltando ao meu enterro. Gostaria de deixar tudo que já vivi em vão para as pessoas necessitadas, que tem fome por uma vida desregrada e imunda que eu tive até final de março deste ano. Além de eu ter me enjoado dela, não consigo nem pisar onde estava. Tenho claustrofobia, totalmente desprovido de vontade de pisar em um buraco negro onde não sei onde vou parar.
Todos agora me perguntam o porquê de eu estar velando meus próprios passos. E perguntam: Ele mudou? Ele não vai ser mais o mesmo? Bem, podem tirar a “éguinha” da chuva, pois não mudei. Sou o mesmo que segura a terra com a mão direita e o mar com a esquerda. E isso eu não deixei cair, não é mesmo? Não acham?
Mas o que eu devo dizer é que eu me apaixonei por um cachecol e estou amando o que tem atrás dele. Enquanto as pessoas diziam: “não, você não pode!”, eu já estava lá. Hoje, quando cheguei além do que as pessoas diziam, mesmo sem antes conhecê-la, as pessoas compreendem o lugar onde estou. E elas jogam rosas no meu túmulo também com alegria. Porém, sempre rezando para que essa ressurreição seja feita de forma digna e fiel. Digna com a minha vida. Ouço alguém dizer ao meu ouvido: “Você está em bom lugar, como nunca esteve. Eu sei que você não vai fazer merda.”. Nunca sei quem é, talvez seja alguém que me deparei quando tinha nove anos de idade. Não me pergunte se é entidade ou a minha rainha de espadas.
Hoje, enquanto fumava um cigarro deitado na minha cama e Bob Dylan cantava suavemente no som, eu observava o meu quarto sem móveis. Foi ali que eu nascera. A casca de ovo quebrou ou algo saiu do útero do meu mundo. Só sei que é puro e singelo. Difícil de ser quebrado. Indestrutível sentimento, que a cada dia segue mais forte. E uma flor murcha me observa na mesa (banco) do telefone ao lado da minha cama. Essa flor deu o supra-sumo da sua vida em troca da minha. Ainda a inalo e ainda há cheiro de seus belos cachos.
Hoje completei 30 anos. A minha vida começa agora.
Abraço.

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Nothingman

setembro 4, 2010

Como alguém consegue arrancar meus predicados? Palavras, que nunca foram ditas. Que nunca saíram de mim. Como as palavras saem tão fácil quando você mira em alguém e faz dela seu alvo? São perguntas persistentes que me atordoam, que me deixam incapaz de qualquer reação. Em épocas difíceis, de que meus dedos, presos a ideias repetitivas, conseguem arrancar meu coração e sangrar essas páginas que aqui escrevo. O que faz uma pessoa que coloca óleo em minhas enferrujadas juntas e desliza em meu cérebro deixando as mesmas ideias transcorrerem dentro de mim?
Quanto mais leio os emails, mais fico sem entender. Eu os leio duas, três vezes, e concordo com tudo o que disse. Mas, como se eu não sou a outra pessoa para concordar? O que sai de dentro de mim é a minha agonia de não ter por perto algo que está inalcançável. Algo que ainda não está curado, que talvez eu não queira curar.
Ontem, quando estava no supermercado, um rapaz de terno, portando um celular moderno tocava um hip-hop alto, enquanto esperava o andamento da fila. Era a única coisa que me fazia chamar a atenção. Observei as latas de cerveja que estavam na minha cesta e olhei para elas e disse: será que vocês vão me ajudar? De certa forma elas me ajudaram. Mas elas vão embora tão rapidamente que, quando acaba a festa em meu cérebro, sou eu que tenho que varrer a bagunça que está nos meus pensamentos. Foi assim que se encerravam mais uma fase de dois dias longos e torturantes. Eu rezo, me ocupo, observo textos, tento escrever qualquer coisa que me faça desviar dos meus pensamentos. Desisto, caio na cama e acendo um cigarro. Essa mesma cama, me engole com suas vestimentas e sinto-me sufocado. Levanto, vou até a cozinha e engulo de uma só vez um copo d’água. Dentro desse apartamento eu olho para o chão. O chão pisado por tantos, mas que de alguém há de ser especial. Como uma criança que pula amarelinha, dou um longo passo para que não arraste a sola do meu pé naquele piso gelado.
“Oh, long day”, brinco fazendo uma analogia com a música “Happy Day”. Sento no computador e não há nada de interessante. “Como é monótona a internet sem ela”, penso. Acho que já escrevi essa frase em algum lugar. Mas não vejo o porquê de não repeti-la. Acho que é melhor: “Como é monótona a vida sem ela”. Acho que assim está melhor, queridos dedos.
Enquanto Pearl Jam tocava “Nothingman”, calmamente, olhei para a minha cama, que não tem nada de altar. Um cheiro intenso sobrevoa sobre meu nariz, que ainda está ali. Eu deveria ter engarrafado esse cheiro. Estou destinado a lembrar desse cheiro. Não sei se é uma maldição no momento, mas ele é bom, e que seja esse meu castigo.
Sentado no chão e com o cigarro acesso, observo o céu. A lua me acariciava nesse momento. Ou era eu que sentia uma mão sobre mim? Quando olho para baixo, uma projeção. A projeção me dizia: “vai ficar tudo bem”. Porque sempre me fala isso? Quando isso vai acontecer? Aguardo essas respostas, aguardo os seus sinais. Uma miragem. Uma presença que eu observava de longe. A vejo caminhando até a mim, em minha direção. Não é real, eu sei. Mas estava forte a cada passo.
Assim como as palavras, meus pensamentos são inesgotáveis. Imito-a, balançando a cabeça devagar. Uma herança física, era tudo que eu precisava no momento. Parecendo que seu espírito mergulhou em mim, sinto suas dores, que agora se duplicam em mim. Saio de transe, bebo o resto da minha cerveja e coloco a lata dentro de um saco preto.
Agora, uma confusão em minha mente se alastra em meus pensamentos. Fico observando o teto do meu quarto. Pearl Jam ainda está em plena sinfonia. “Homem de Nada”, Eddie Veeder me dizia. Concordo, Eddie. Viro-me de lado e fecho meus olhos. São um pouco mais de 2 da manhã e tenho que acordar cedo. Fecho os olhos devagar, esperando que aguarde os fios propulsores da minha mente desligar. Peço que me mostrem um futuro, dentro da bola de cristal sonolenta. Alguma imagem que não me faça querer acordar tão cedo no dia seguinte. Acho que esses sonhos também são inesgotáveis.

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Rocket Man

agosto 12, 2010

Observo a tela branca do Word e o cursor, como uma feiticeira, some e aparece a cada milésimo de segundo. Estou transbordando de ideias e sentimentos, mas o turbilhão é tanto que não consigo organizar as idéias. A única frase que eu tenho vontade de escrever é: “puta que o pariu!”. Levanto a barra de rolagem e vejo tudo que foi escrito. As ideias ainda não estão disponíveis na minha cabeça. Por pouco não pego o laptop e jogo contra a parede. Levanto e vou até a geladeira pegar uma soda e encho meu copo um pouco mais da metade. Vou até a estante do bar e pego uma garrafa de Logan e preencho meu copo. Acendo um cigarro. O habitual ritual ainda vai desgastar meu estômago. Mas não estou nem um pouco preocupado com isso no momento.
A fumaça do meu cigarro sobrevoa sobre meu rosto, chegando ao ponto de cegar meus olhos. Vejo a rua pela janela, caem gotas de chuvas, águas turbulentas despedaçadas como um meteoro evitado por cientistas. Espero que uma conhecida trovoada surja, mas estou mais distante dela no momento.
Meu celular está desligado, não há nenhum contato, a não ser eu e o computador no momento. Só algumas pessoas que me cercam. Elas me deixam sob o meu controle melancólico. Tento buscar algum momento olhando para os azulejos da cozinha e me vem uma imagem. Sorrio, mas ainda não é o suficiente para que meus dedos comecem a trabalhar. “Que vontade de jogar esse laptop no chão”, eu penso. Uma mosca pousa no meu dedo, eu a afasto. Ela insiste, e faço o mesmo movimento anterior. Ela viu que eu não estava de brincadeira, então ela passa a namorar a maçã que estava ao meu lado. Cultive isso, dona mosca.
Como vou terminar isso aqui? Não faço a menor ideia. Olho alguns documentos, textos, fotos, músicas…aquilo não fazia disso um final. Pioraram minhas idéias, mas melhorou meu coração. É uma bela forma de negociar.
Ligo a TV e vejo um canal de jornalismo. Era um documentário sobre o Uruguai. Penso como seria minha vida lá, sem um passado na minha cidade. Essa cidade que agora estão com as luzes amenas e um silêncio ensurdecedor dizendo que todos estão em paz, no maior profundo dos sonos. Como seria deixar a minha cidade, onde me criei, onde conheci as melhores coisas que um homem, como eu, construí? Imagino deixar para trás um passado recente que me manteve de pé. Eu não estaria fugindo de nada, só pensaria como viria a ser suportar longe do sol que me queima. Talvez voasse entre as estrelas e me despediria por um tempo indeterminado de um solo pisado por todos esses anos. Não preciso de tanto, afinal voar tão alto não vai me fazer chegar ao sistema solar que eu desejo.
Sacudo a cabeça e retomo a minha escrita. Começo a escrever sobre a mudança de estação, pois é esse o meu calendário. O meu calendário Maia, onde deixei de ser um simples primata, uma vida que tinha absolutamente nada que me fizesse esperar o amanhã. Vivia apenas o dia de cada vez. Na verdade, por mais que as pessoas digam que viver um dia de cada vez é uma necessidade, para mim se tornara mais fácil viver o amanhã, pois é a única forma de transformar uma esperança em realidade. É quando pedia à força superior para que acelerasse o relógio. Ou me afundava na minha cama ou lia um livro qualquer que não me trazia o menor interesse, como a história da Coca-cola.
Fecho o laptop desistindo, as palavras também não queriam falar comigo no momento. É uma rotina atual.
Quando fui dormir, fiquei pensando de quando entrei naquela igreja. Na igreja que meus pais se casaram, mas que foi ofuscado com uma imagem/lembrança grandiosa no altar. Me senti zonzo quando entrei e agora essa tonteira vinha fisicamente. Mudo de posição para que ela passe.
Devo dizer que o final só veio logo assim que cheguei em casa. A mesma casa vazia e fria como de costume. Senti frio quando terminava a história, sem álcool, um cigarro acesso, onde as fumaças faziam desenhos abstratos sobre a luz que pairava do abajur. Fiquei tão satisfeito com meu final, que fui até o bar ao lado para beber uma cerveja. Fiquei sentado naquele mesmo bar onde havia seu fantasma. O mesmo fantasma que havia visto no metrô conversando comigo. Me sinto assombradamente bem quando ele vem.
Uma semana depois de ter terminado o meu trabalho, resolvo fazer uma limpeza no meu quarto. Recolhendo livros, notas fiscais, CDs e caderno.
Até que me vem uma surpresa que eu não esperava. Um cartão de um hotel fazenda da Ilha de Paquetá. Como estava há tanto tempo aí? Novos turbilhões de imagens vêm em cortes secos e rápidos. Sento na minha cadeira e acendo um cigarro. Elton John me dava razão nesse momento quando cantava “Rocket Man”. Talvez voar seja o meu maior hábito nos últimos tempos. Eu já viajei entre as estrelas e ainda não percebi. Só que eu ainda sinto falta da constelação.
Abraço.

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O bêbado e o equilibrista

julho 25, 2010

Eram por volta das 4 da manhã que eu chegava nas ruas de São Cristóvão. Um bêbado, desfacelado pela angústia, ou por escolha, acabara de ser espancado e assaltado por menores viciados em crack locais. É a volta do antigo personagem que vivia nas sombras dessas ruas escuras e perigosas. Ligo para a Samu. Após meia hora eles chegam e diagnosticam. Da mesma forma que eu diagnostiquei. Bêbado. Por onde passava a cabeça desse homem quando caiu na maior e obscura mente humana? Qual é a escuridão do seu coração? Eu o observo e, mesmo entre vômitos e sangue em seu corpo, havia uma preocupação e agonia no seu rosto, mesmo de olhos fechados.
Quando cheguei, sentei na cozinha de um amigo, ligo o rádio, tiro seu laptop do armário e resolvo escrever. O relógio marca 5:05 da madrugada e misturo uísque com coca-cola num copo de geléia. Na rádio, “Mercy Street” do Peter Gabriel. E roubando uma frase de uma amiga que recebi num velho e saudoso email, ‘A sir singing a about sad song’.
O que hoje muda a minha história? Talvez o fim de um ciclo. Que foi dilacerado, por motivos justificáveis. Fico pensando na justificativa, e é complicada de entender. Mas está ficando mais fácil de conviver. Mas nunca conseguimos conviver com um vizinho chato ou a morte de um ente querido, não? Há de se acreditar numa ressurreição, mas ela só vem quando os céus disparam um contra o outro.
Fico pensando numa conversa, enquanto bebo minha mistura alcoólica e acendo um cigarro numa cozinha escura. Coloco meus dedos entre o filtro do cigarro e olho para o teto. Fico rindo, sorrindo dos melhores momentos. Agora era uma saudade gostosa de sentir. Mas quando penso que essa saudade não será mais suprida percebo que o momento não é dos melhores. “By My Side” do INXS me faz cair numa escuridão. Talvez a mesma do bêbado.
Fiquei pensando quando a enfermeira-chefe examina o homem e diz que ele é o resto do ser humano, que não tem o porquê dele estar assim. As pessoas trabalham com seriedade de madrugada. Eu discordei dela. Ela me observou assustada, achando que podia intimidar a todos, inclusive as que pedem ajuda. Eu disse a ela: “Qual é a diferença dele pra mim?”. Ela diz que a diferença é óbvia. Discordo novamente. Não só porque estou bem mais vestido que ele, mais sóbrio que ele, e que meu rosto não está que nem um purê, que me faz ser diferente dele. “Olha pra isso. No que você se identifica?”, ela frisa com sua pergunta. “Estou no mesmo quarto escuro que o dele”, respondo. Ela não dá bola para minha filosofia barata e recolhe o homem. O carro da Samu segue e observo eles levarem o homem.
Enquanto pensava na cozinha e escrevia, minha mente projetava aquele rosto. O rosto que mais gosto de lembrar. “Cada um com seu copo de vazio”, ela dizia para mim nessa noite. Bem, meu copo está cheio. E quanto mais bebo, o copo enchia mais. Num passe de mágica, o uísque retornava à minha vida. A mesma vida que tenho seguido nos últimos meses.
E vejo que esse ciclo tem se fechando exatamente de onde comecei. Há duas explicações: quando um planeta para de rodar num sentido, ele retoma no sentido contrário. E para qual lado esse sentido redirecionava na minha vida? Ainda não faço idéia. Espero que esse sentido retome um ciclo no mínimo desejável. Aguardo respostas da minha vida. E torço que siga para o caminho que espero. Da mesma forma que o homem que entrou naquela ambulância. Espero que amanhã, quando acordar, as luzes das nossas vidas estejam acessas.
Enquanto Elton John acabava de cantar “Don Let The Sun Go Down On Me”, encerro mais um pedaço desse assunto. Mais um fragmento dessa minha vida louca. Esperando que more dentro de mim. Os pássaros começavam a cantar, o dia começava a clarear. E já estou bêbado o suficiente para dormir. Agora pronto para entrar na minha própria caixa escura.

Abraço.

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Manual de como sobreviver numa crise de abstinência (e não sucumbir ao desespero)

junho 10, 2010

Tudo o que um homem que vive da escrita não pode ter é ansiedade. Isso reflete na parte criativa, no isolamento com as pessoas, seu humor muda constantemente e suas pernas não param de se agitar a cada segundo. Come compulsivamente, mas não tem fome. Fuma, mesmo quando acabam seus cigarros, bebe como se não houvesse bebidas destiladas no dia seguinte e não consegue ter um fiapo de sono. É o pior inimigo do escritor. Ele consome todo seu cérebro, mantendo-o ligado 120 volts, sem nunca te deixar parado no mesmo lugar. E o que mais interrompe numa crise de ansiedade é que você quer fazer tudo ao mesmo tempo e nunca consegue fazer nada, porque, na verdade, você não quer fazer.
Foi assim que eu me senti no último feriado. Ansioso. Desprovido de vontade de fazer qualquer coisa para mim. Uma grande abstinência que deixou todos os meus sentidos confusos e num corredor vertiginoso que me fazia andar sem antes me segurar nas paredes.
Devia ter resolvido coisas pendentes, ter recebido a visita na minha casa de forma cordial e atenciosa, ter almoçado direito e ler os livros que estão espalhados pelo chão. Na verdade fiz tudo isso. Mas eu simplesmente não estava ali. E como eu agi? Como um escritor ansioso e com crise de abstinência, claro. Era como se meus sentidos entendessem minhas próprias linguagens de sinal e seguia num controle remoto mecânico e filtrasse todos os meus subterfúgios. Meus olhos giravam como um desenho de uma bala, em voltas verticais e giratórias e a única coisa que eu queria era andar, andar, andar e andar. Sem nada na minha mente. Tudo era deletado da minha mente. Com exceção, Ela.
O telefone tocou naquela tardinha de quinta-feira, era a minha agente. “Você vai ou não?”. “Onde?, respondi. “Onde, porra?! É assim que você quer ganhar a vida? No evento, cacete!”. “Ah, sim. Vou, eu vou”, respondi. “’Eu vou’.”, ela repete. “Se veste logo, porra! Chega cedo dessa vez”, continua. Ela canta um funk proibido qualquer e desliga o telefone. Faço o mesmo e entro no chuveiro. Me encontrava um pouco aliviado, pois havia conversando com Ela pela internet. Não era a mesma coisa, mas diante das circunstâncias, era um sal de fruta no meu estômago.
Como todos os eventos em que sou chamado, ela é cheia de luzes, música alta e gente animada. Finjo estar super animado também, e que aquele trance bate-estaca estava soando como a Ella Fitzgerald. Ouvia a Ella cantar “How Long Has This Been Going”. A primeira garrafa de Heineken é sempre a melhor. Bem diferente da oitava que já pesa no seu estômago como uma bigorna. Mas eu nem pensava nisso e intercalava com um drink moderno que roubei de uma amiga. Em outra situação minha libido estaria batendo no teto, mas permaneço imóvel e concentrado como nos últimos dois meses. Todo o planejamento de ser uma pessoa promíscua e que gostaria de aproveitar os anos dourados de solteiro, rasguei. Dou Shft + Del e excluo completamente de mim.
Fui para a área de fumantes e observei a névoa de fumaça. Olhei o céu, bem arquitetado com as estrelas, e as conversas alheias são ofuscadas com “Willow Wheep For Me” da Sarah Vaughan no meu invisível DJ. Quando percebi, estava bebendo o último gole de um drink esverdeado (que não fazia idéia do que era), até que um amigo me chama a atenção: “vamos embora?”. Concordo, e deixo o copo numa cadeira. Me sentindo um Frank Sinatra quando larga o copo de wiskhy e seu cigarro de qualquer forma, balanço a cabeça com “For Once In My Life” invisível e saio do lugar.
No dia seguinte eu acordava na casa desse amigo com o rádio da empregada. Boechat informava que um comboio xiita no Iraque fizera um atentado deixando 95 mortos. “O dia mais sangrento do ano”, dizia ele. Eu concordava. Eram os dias mais sangrentos do ano. Pelo menos para mim. Forço a vista pra que não lute contra a luz do sol e emito o meu clássico: “Jesus Christ!”. Que dor de cabeça. A habitual dor de cabeça. Deveria sempre pensar nela quando resolvo beber demais. O café e o cigarro matinal me despertam como uma alavanca e resolvo tomar coragem de me arrumar e ir para minha casa.
No meio do percalço o motorista do ônibus, sintonizado numa rádio, executa “Every Breath You Take” do Police. Coloco minha cabeça pra fora do ônibus para respirar. Invado no meu próprio silêncio e deixo as boas recordações vir à minha mente.
Quando chego em casa, ela está vazia, fria e sem vida. Passeio pelos contornos dela. Me aproximo com medo dela. Há algo assombroso nela. Um frio na espinha e uma pequena falta de ar fazem com que eu feche meus olhos e me obrigue a relaxar. Bebo água e respiro fundo. Acendo um cigarro e vou ao banheiro. A água quente infiltra-se no meu corpo como facas. Quando entro no meu quarto, todas as perguntas vinham em minha mente. Será que eu ia conseguir sobreviver no meu quarto? Quantos cigarros eu iria consumir desde então? “Every Breath…” mudaria para “King Of Pain” agora? Enquanto mastigava uma comida sem graça à contragosto e lia o jornal, começava a sentir os sintomas do dia anterior. Então, uma janela mágica abre no canto do meu monitor. É Ela. Ela veio me salvar. Minha santa. A quem sou devoto. O antídoto de todos os meus sacrilégios. A cura dos meus estigmas. Amém.
Os dias duraram como anos, eu sei. Mas nos últimos dois dias fui recompensado com os nossos 10 minutos. Minutos esses, que proporciona o tempo da idade das raposas.

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Cinco Minutos

maio 18, 2010

Eram por volta das 11:31 que entrei na casa. Os cômodos vazios, a parede branca e parecia inabitável por alguém. Não havia nada na casa, além de ecos, o chão molhado e algumas garrafas de cerveja. Um pano molhado na porta da cozinha marcava as suas pegadas. Me aproximei desse corredor como se fosse um ladrão assaltando a casa. Andava com medo, passando pelas paredes, pelas poças de água no chão, e o banheiro que vinha um flashback instantâneo. A impressão que eu tinha era que eu mergulhava na pior das escuridões: a ausência. Uma ausência que corroia todo o meu âmago, que enrijecia os músculos do meu corpo e uma quentura na testa, como se, a partir daqueles passos, uma febre se aproximava e iria consumir, desde então. O quarto. O quarto branco. O quarto branco que cegava meus olhos. Como se as unhas de uma águia arranhasse meu cérebro e dominasse minha cabeça. A impressão era que eu estava esperando por alguém dentro de um quarto de manicômio. Esperando que alguém viesse até a mim e fizesse lobotomia. Um louco com imagens alucinógenas. Inúmeros fantasmas do mesmo fantasma rodavam e dançavam como se dançasse tango ao som do Astor Piazzola.

Um suspiro ecoou na casa. Meus pulmões estavam tão cheios, que parecia que ia me faltar ar. Gastei dez segundos de respiração nesse suspiro. O suficiente para me matar. Preenchi esse ar com a ajuda de um marlboro vermelho. Tirei o maço do meu bolso rapidamente e acendi com muita agilidade. Nesse momento o cigarro era um inalador. Inalaria toda uma dor que sentia dentro do peito. Essa dor que arrancava todos os meus órgãos. Suspirei novamente e respondi uma pergunta que alguém dentro da casa havia feito para mim. Respondi roboticamente.

Acendi a luz do quarto. E o fantasma parecia se dissolvido. A imagem. Não a presença. No piso branco, cabelos e pêlos tapeteavam (uso agora neologismos que é de seu costume) o chão. Deslizo a sola do meu pé sobre eles e os bagunço pelo quarto como se fossem areia. Caminhei até o CD player desviando dos seus fantasmas e me aproximo de um lençol. Rasgado, velho e talvez sem mais utilização. Só para mim. Me abaixo e pego velho lençol. Quando o abro, o seu cheiro acentua ainda mais na casa. Permaneço ali, em alguns segundos, pensando.

Desta vez ligo o som e Bruce Springsteen já está no player. Pulo para a faixa 12, “Janey Don’t You Lose Heart”. Encosto na parede e vejo seu fantasma sobre meu corpo. Tento abraçar o seu ectoplasma, mas ele escapa sobre meus braços. Nesse momento ela se projeta contra a parede me observando, como de costume. Me observa fumar meu cigarro e beber a coca-cola, agora quente, no meu copo. Seus habituais olhos de curiosidade penetram nos meus. Esse olhar nos congela. Ficamos apenas nos observando. O fantasma e eu. Dentro de um piscar de olhos, eu a vejo deitada sobre o lençol olhando para o teto. Agora o piano de Chopin engole a guitarra raivosa de Bruce. Deito-me e ela não está mais lá. Me levanto novamente e dessa vez ela está do meu lado. Encostada na parede, dessa vez vestida. Dizendo: “vamos embora?”. Olho para o céu e o tempo agora nubla. Vejo a hora no meu celular e marcam 11:36. Como na outra vez, ela não está mais ao meu lado e em nenhum lugar algum do quarto. Franzo as sobrancelhas e saio do cômodo.

Durante toda a arrumação na casa, foram momentos sofríveis. Em algum momento a minha vizinha conversa comigo sobre a janela, a conversa, que não tem importância alguma nesse texto, me faz distrair um pouco. Tudo que se distrai ou se desvia, não passa. Só faz voltar tudo de uma vez. Estendo os panos de Chão, jogo água na área de serviço, passo pano molhado nas janelas. “Não vou aguentar ficar muito tempo aqui”, pensei. Vejo na janela um palito de sorvete. Ainda tem o cheiro de limão. Um sorvete que fora dividido. A presença ficava forte, até que, presenças reais aparecem. Converso com eles, troco ideias sobre a casa, mas minha cabeça parece não acompanhar o que eu mesmo dizia. Troco meu CD do Bruce Springsteen por um da Elza Soares. Algo trazia esse fantasma novamente com esse disco. Deixei o CD rolar, enquanto o eletricista acompanhava com assobios.

Resolvo sair para almoçar. Aonde? O bar em que eu costumo almoçar, vai trazer o fantasma comigo. Nem fome o suficiente eu sentia também. Entro numa confeitaria e peço um misto-quente. O sabor desse sanduíche me trazia lembranças. É claro, dela. Parecia que eu mordia os pensamentos que me viam em mente. Seus pés, suas mãos, seus olhos, a gesticulação do seu corpo. Tudo isso incluía no sanduíche. Dentre os períodos em que eu bebia a coca-cola que acompanhava o “almoço”, me dava mais vontade de morder o sanduíche. E a cada mordida, cada degustação, a fome aumentava. Tudo era tão rápido nesse momento. Até que meu celular faz um barulho. É ela. Dizendo que ia viajar. Eu comecei a uivar na janela. E as mordidas já não eram tão mais saborosas quanto às anteriores.
Me preparava pra ir embora, mas o serviço dobrava a cada instante. Mudança de lâmpadas, trocas de fios, pregos nas paredes. Não me perguntava o porque estava andando por um lado e pro outro. Porque eu não queria ir embora? Não foi sacrificante o suficiente? eu me perguntava.

Sentei-me cansado no lado de fora. Enchi meu copo de mais coca-cola e acendi o penúltimo marlboro do maço. O celular toca. Levanto e vejo quem me ligava. É ela. Dizendo que estava vinha vindo me ver. O vento soprava em minha direção agora. A meu favor. Esperava ansiosamente agora. Me lembrava do que eu estava pedindo, das instruções ao eletricista. Acendi o último cigarro, joguei o maço vazio fora. Calcei meu chinelo havaianas e…escuto meu nome. Escuto mais uma vez meu nome…

Será que é ela? Me certifico tocando o seu corpo. Meu tato não me enganava. Meu paladar conhecia muito bem aqueles lábios. Eu estava certo. Era ela. Dentro da escuridão que cercava o corredor, ao meu redor as luzes se acendiam. Não me lembro de mais nada. Olho no relógio e marcavam 17:40. A apresento às pessoas que estavam ao meu lado durante o dia. Eles também estavam com ela durante todo o dia, mas não sabiam. Só eu sabia que ela estava ali.

Quando a deixei no metrô, resolvi dar meia volta para vê-la de novo. Talvez para me certificar que ela estava ali. Ela estava de volta. Pra dizer a verdade, ela sempre esteve. E ainda está. Ela passa pela roleta do metrô. Eu olhei no relógio. Tivemos pouco tempo juntos, só cinco minutos. O relógio marcava 18:30.

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Jeff Bridges e Oscar

março 11, 2010


Todas as vezes que a semana do Oscar é exibida, acabo sempre escrevendo algo sobre a premiação. E dessa vez não vai ser diferente. Embora, eu achar que é um prêmio covarde, pois os filmes dos outros países não disputam com os americanos, acho que vale a pena mostrarmos o que de “melhor” tem sido feito em Hollywood.
Esse ano dois filmes eram os grandes finalistas: “Avatar” e “Guerra Ao Terror”. Não assisti ao vencedor, mas vi a nova peripécia exagerada do James Cameron com óculos 3D. Os meus outros amigos, Tadeu e Sammy, que assistiram comigo saíram mais pessimistas e frustrados do que eu. Quando, na verdade, achava que eu sairia mais irritado do que eles. Talvez por eu achar que o filme era pior do eu imaginava. Apesar de a história ser insossa, o óculos pra mim foi o maior vilão. Tentei tirá-lo do rosto, mas a tela borrada e desfocada se tornara improvável de ver. Tirando a luta contra o sono quando tinha um pouco mais de uma hora e meia de filme.
Esse ano, os filmes por quais eu torci foram “Bastardos Inglórios” e “Um Homem Sério”. Não vi além desses dois filmes o que chegassem perto de originalidade e sagacidade. “Preciosa” me parece ser mais um “filme brasileiro”. Eu poderia ir ao Estação Botafogo e perguntar qual é o filme nacional sendo exibido, que seria igual a ele. “Educação” é um filme belo, mas que não empolga. Não entendi o porquê de “Up” ser indicado a melhor filme, se concorreu também a filme de animação. “Distrito 9” tem que entrar na história, mas não como o melhor filme, mas como uma nova forma de fazer ficção científica. É estupidamente melhor que “Avatar”, com certeza. Talvez quem poderia levar o prêmio além de “Guerra”, “Bastardos” ou “Um Homem Sério” teria sido “Amor Sem Escalas”, pois é tocante, ou “The Blind Side” que eu ainda não o vi.
Mas o que me deixou mais contente, e por qual mais torci, foi a vitória de Jeff Bridges. Como eu disse antes, o Oscar é um prêmio de marketing e um voyeurismo do próprio americano. Mas o fato de Jeff ter levado o prêmio é o reconhecimento de um dos melhores atores que Hollywood já teve (e tem), mas que a grande massa cinéfila e metidos a entendidos como Rubens Edwald Filho e Roger Elbert, ignorou. Eu entendo, pois Jeff ao longo dos anos, fez escolhas erradas na carreira, além do seu problema com alcoolismo.
Sua última indicação ao Oscar foi em 2000, pelo filme “The Contender” (aqui no Brasil como “A Conspiração”), dezesseis anos após sua indicação em “Starman”, de 1984. E dentro desse todo tempo, o que mais Jeff fez foram filmes de ação meia-boca, comédias bobocas e uma ficção científica confusa chamada “K-Pax”. Mais um motivo de pensar o que se passa na cabeça dos grandes executivos e agentes despreparados para gerenciar a carreira de atores grandiosos como Jeff.
Seu primeiro filme, pra dizer a verdade o primeiro de mais expressão, foi quando ele tinha 22 anos em “A Última Grande Sessão de Cinema” de Peter Bogdanovic. Eu devo dizer que me impressionei com a agilidade nos diálogos, a precisão das expressões corporais e a vulnerabilidade de um personagem garanhão enganado pela namorada, a então Cibyl Shepard. Depois de ser cotado para fazer Travis Bickle em Taxi Driver, Jeff fez a medonha versão de “King Kong” da década de 70. Acho que foi daí que sua carreira não deslanchou como seus outros colegas Al Pacino, De Niro e etc.
Na década de 80, Jeff fez dois trabalhos incríveis: em “Starman”, o alienígena que cai em missão de paz na terra (é claro que deu tudo errado) e na pela de “Tucker”, o engenheiro pai de família, simpático e obsessivo pela construção dos seus carros, dirigido por Coppola. Ele fez também o divertido e Cult “Tron”, que está para sair a continuação ainda esse ano. Na década de 2000, você pode ver Jeff em dois momentos: no treinador de cavalos em “Seabiscuit” e no vilão em “Homem de Ferro”. Na década de 90, Jeff teve um sucesso no filme “Nada a Perder”, mas ele é lembrado mesmo em “O Grande Lebowski” onde criou vida no ex-pacifista, vagabundo e jogador de boliche nas horas vagas como o lendário Dude.
Assisti nessa semana a incrível, como muitas, atuação de Jeff Bridges em “Coração Louco”. Era um dos filmes que eu mais esperava. Senti no fim da exibição que não era um grande filme. Tem um final que deixa um pouco a desejar, pensando no público. Um pouco de cenas desnecessárias e planos bem elaborados e corretos. Mas o que nos deixa mais motivado é o fato de Jeff Bridges conhecer bem o universo da bebedeira, do showbusiness e da música country. Creio que se fosse outro ator, ele teria feito o máximo para emocionar o público e se fazer de vítima. Jeff faz exatamente o contrário. Apesar de Bad Lake ser um homem simpático e atencioso com os fãs, ele é asqueroso e porco. Vive de calças abertas, bebe o tempo todo e acende um cigarro no outro. Uma das melhores cenas é quando ele está fazendo um show numa casa de boliche decadente. Bad canta um dos seus sucessos, mas acaba saindo do palco pra vomitar e depois volta para cantar o último verso e se despedir. No fim, ele acorda no seu quarto com uma fã velha e feia.
Quando Bad Lake conhece Jeanne, a jovem jornalista, começa então seu momento de redenção. O que mais me chamou a atenção foi a parceria com a atriz Maggie Gillenhal, que, apesar de ser uma belíssima atriz, é difícil encontrar um ator que mantenha uma química com ela. E isso Jeff Bridges tirou de letra. O que impressiona, pois, mesmo aos 61 anos, Jeff consegue manter química com qualquer ator. Às vezes é tão estranho, quando alguém muito diferente de atuar, de se portar, acaba sendo bem escalado ao lado do ator.
O que é mais curioso, é que Jeff continua demonstrando o mesmo carisma desde “A Última Sessão de Cinema”. A mesma vontade de atuar, embora, dizem, que ele é um dos atores mais preguiçosos de Hollywood. Delineando entre a emoção e o humor, transformando raiva em comédia, a derrota em esperança. O que exatamente falta nos atores atuais. E falta também no cinema atual.
O que ainda me motiva no cinema hollywoodiano é o fato de grandes diretores e atores da década de 70 continuarem na ativa. E me deixa mais contente quando alguns deles, ao torno de 60, 70 anos de idade, estar recebendo prêmios. Existe um frescor desses artistas que falta em novos atores como alguns Robert Pattison ou diretores como Antoine Fucqua. Hollywood tem sido ruim para eles mesmos quando não indica uma bela animação como melhor filme (não esses da Pixar, me desculpem), quando ainda indica Meryl Streep ou Judi Dench para melhor atriz e que considera filmes de grande bilheteria como o “melhor” ou um dos “melhores”.
Porque Hollywood se assusta quando veem um Guilhermo Del Toro ou um Peter Jackson entrando de penetra na sua própria festa? Será se é tão difícil eles pensarem que cinema é uma mudança constante? E às vezes não é nada demais. Essas mudanças são apenas uma restauração do melhor do seu cinema que foi esquecido por décadas, como faz o próprio Tarantino.
Não acredito nem um pouco nessa premiação, mentirosa e estúpida. Ela apenas incentiva a indústria de DVDs lançarem seus produtos em edições especiais e colocarem qualquer filme que eles acharam bom o suficiente para ter aquele selo da estatueta careca e dourada, como se fosse um terno Armani. Ou seja, pensam no mercado, não na arte.
Hollywood só faz mal a ela mesma. É uma pena.

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Uma volta

fevereiro 8, 2010

Alô para todos que habitam na cidade do Rio de Janeiro, a cidade que nunca dorme (sem escutar uns tiros antes). Olá para aqueles que também não vivem aqui e visitam esse blog imundo e, por vezes, sem graça. Eu gosto dele assim. Sinto como eu estivesse afundando meus dedos numa máquina de escrever. O resultado é um hipnótico e vertiginoso pedaço de papel branco. É aqui não é diferente.
Nos últimos meses eu estive distante de mim. Porém, trabalhando. Ou deixando que o trabalho me persiga. Me ache. Gostaria que o meu sonhado trabalho viesse me caçar, como um furioso tigre de sabre. Mas não é tão fácil assim. Então, eu tento cutucá-lo com uma vara curta. Deixar esses tigres sedentos de fome e com raiva é difícil. Você tem que escolher bem que tipo de carne eles querem devorar.
Há duas semanas um projeto meu deu para trás. “Esse não é o tipo de trabalho que esperamos agora”, disse uma voz aguda ao meu telefone. Eu os entendo, apesar de não aceitar. Às vezes é mais fácil entender que aceitar. Da mesma forma que assistimos aos programas evangélicos na TV de madrugada, apesar de conseguirmos entender o porquê de toda aquela utopia. Outro acerto na minha ‘desmiolada’ cabeça é não me fazer de vítima. A famosa Síndrome de Ivan Lins. Não sei se vocês perceberam meus caros leitores, que, todas as vezes que o Ivan Lins canta, ele se emociona com a própria emoção?
Embora todos concordassem que eu não vivia reclamando à toa, que as coisas demoram a surgir pra mim, que eu consigo as coisas com muita luta e sacrifício (sinto-me nesse momento como a criança sacrificada de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”), eu passei a discordar. Esse é um grande segredo para se conseguir as coisas. Se autoflagelar. Exigir o máximo de suor de você e etc, etc. Eu tenho sido o meu próprio patrão, o próprio capataz, meu diabo. Tenho mastigado e arrancado com os dentes as minhas entranhas. Eu tenho me servido a mim mesmo no jantar. E quanto mais me mastigo, mais aprendo de mim. Passo a sentir o meu próprio sabor.
Eu queria dizer a todos que leem esse blog, passam por ele, e às vezes não encontram nada demais, que o seu dono não está de volta. Eu não voltei como antes, estou bem diferente do que antes. Não vão encontrar o mesmo de antes.
Deixo esse recado insosso e indiferente, para dizer que vocês verão mais textos. E que o Bar ainda não fechou, só estava em obras. Voltarei nas próximas vezes com mais raiva, muito raiva. Paixão, violência e amargura. Felicidade, euforia e amor. Deixo esse singelo convite para que retornem com frequência. Se quiserem.
Abraço.

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Onde a jeripoca pia

outubro 19, 2009

Onde realmente é seguro? Na rua ou em casa? Me perguntei inúmeras vezes sobre essa questão no sábado. Se você tá na rua está sujeito não voltar vivo para casa. Se você está em casa está sujeito ser surpreendido. Você está num fogo cruzado que não tem para onde correr. Só para o bar da esquina, onde um policial está tomando um sorvete. E ainda está sujeito alguém atirar no policial e a bala atravessar o seu chicabon e a azeitona atingir sua cabeça. Isso parece com os filmes do John Ford, não?

Que tal uma historinha?

John Wayne, aqui nesse texto seu nome é Carl Lancaster, entra num bar, onde todos estão sentados bêbados e jogando carta. Carl se aproxima do dono da espelunca e pergunta:

- Onde está o Pele Vermelha?

- Não sei do que você está falando. – responde o covarde bigodudo.

Carl tira seu revólver do coldre e aponta para o nariz medroso do dono do bar, que aponta para o chão de madeira maciça. Carl aponta para o chão e os bêbados ficam apavorados. Quando ele emite o primeiro som do cano de aço, ouvimos sons estranhos de longe. Carl para e se concentra no chão. Quando esse som se aproxima, Carl se joga no chão e um grupo de índios começa a atirar no bar. Garrafas quebradas, cadeiras e mesas furadas e um grande estrago no estabelecimento. O Pele Vermelha aproveita para fugir com seu bando. Carl se levanta e começa a trocar tiros com os índios que somem no crepúsculo. Carl vira-se para o dono do bar, agradece e vai embora. O prejudicado dono da espelunca apenas observa o xerife Carl ir embora.

Essa é apenas uma história do Rio de Janeura. Fico contente com Woody Allen rodar aqui, mas eu iria preferir Sam Peckimpah ou Sergio Leone. Ou trocaria de Woody. Ao invés, Allen seria o Woodpecker com seu pé-de-pano.

Voltando, o último sábado foi o mais “bizarro”, como disse a sogra do meu irmão, da minha vida. Voltava da farra às 6 da manhã de sexta pra sábado e vi as portas da minha casa abertas. Desesperado, corri pra ver se algo havia acontecido. E era meu pai fechando as portas e apagando as luzes. “Você que deixou isso tudo ligado e aberto?”, perguntou meu pai. “Cheguei agora, pai”. Os dois se observaram e franziram as sombracelhas entendendo a solução. Para entender vamos a…

…uma expressão do Fafas Houaiss: Encher a caveira; se embebedar, entornar o caneco, rastejar na loira, tomar um match point e, simplesmente, pessoas estranhas na sua casa que bebem e, irresponsavelmente, trazem outras pessoas estranhas para sua casa.

Foi assim, que eu acordei e não vi meu aparelho de DVD que não tinha uma semana que eu havia comprado. Revoltado, voltei pra cama e coloquei um disco dos Novos Baianos pra rolar no som. A boca estava seca com o número de cigarros que eu fumei e aquele gosto pesado de cerveja da noite passada. Acordei e almocei. Pensava em sair para arejar a cabeça. Comecei uma conversa com uma amiga pela internet e ela me diz: “a cidade está pegando fogo!”. Mas fogo mesmo, literalmente. Um Jason Strahan do morro carioca derrubou um helicóptero, os meus passos rotineiros para o curso de inglês estavam cercados e uma dúzia de índios se apoderara da cidade, mais uma vez. Vou ficar em casa, até segundo ordem. Mais tarde, conformado, untei uma travessa de alumínio com manteiga e coloquei pão de queijo no forno e fiquei o dia inteiro em casa.

De noite,enquanto assistia um filme no meu computador, minha mãe toca no meu ombro e diz: “apareceu seu DVD”. Meu Deus, David Blaine, quero um autógrafo. Não, era apenas um nordestino, mais magro que eu, com roupas de garçom e com consciência pesada (não sei se por levar um DVD ou comer mulher alheia). Minha mãe pegou a chave de casa da sua mão e “agradeceu” ao sujeito incorfomado com a sua falta de honestidade.

Agora eu fico rindo da situação. Mas este sábado eu não vou me esquecer. Tudo foi desviado.  Minha rotina, meus objetos, minha vida. Ela esteve na mão de terceiros. Tudo dependeu deles e, graças a Deus, tudo ocorreu da forma que eu queria. Eu apenas fiquei quieto e agradeci. Afinal, o Rio de Janeura ficaria mais lindo sem mim, uma pessoa rabugenta e que pretendeu comer a mulher alheia três anos atrás. Eu sou uma pessoa rabugenta, que não traz solução e incapaz. Daqui há dez anos estarei aqui sentado nesse mesmo computador reclamando da vida e me fazendo de vítima. Em 28 anos de vida não resolvi nada, mas será que pessoas com mais de 60 fizeram algo pra mudar?  Eu pelo menos tenho mais tempo.

E sim, sou carioca pra caralho! Sou mais do que muitas pessoas que dizem por aí. Amo minha cidade. Gostaria que na minha identidade estivesse CIDADE DA GUANABARA. Tanto amo que conheço todos os seus extremos e não fico com a minha bunda sentada olhando Orkut e criticando os outros. Sei onde a jeripoca pia.

Tanto amo, que ontem perdi meu ônibus antes da meia-noite. Porque reclama? Afinal, meu pai não me deu um carro de presente de dia das crianças, não é Daniel? Só ganhei um carro de plástico no natal de 1982. Enquanto eu ainda cagava nas calças você nem tinha nascido ainda.

Anyway, a Cidade das Olimpíadas não tem ônibus de madrugada. Quero saber como os gringos vão fazer pra visitar a “Apowtyosssy”. Alguma solução? Por favor, esse escritor aqui nunca traz solução nos seus textos. Alguém me ajuda?

Bem, me desculpem o desabafo e a confusão de quem não entendeu bulhufas (o texto desse escritor é confuso e ele não vai chegar a lugar nenhum). E aos palavrões, que não é comum nos textos.

Beijos.

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Saca só a fofura lançando seu segundo CD. Quer mais um motivo para não estar apaixonado por ela?
Junto com Peter Yorn, grande músico que fez trilha-sonora para o filme Eu, eu mesmo e Irene, Ela marca mais presença nesse cenário insosso onde as “estrelas” colocam silicone, são presas por estarem bêbadas ou fazendo programinhas para TV. Eis alguém que realmente está fazendo!
Longa vida para a linda aí abaixo.

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