
Jeff Bridges e Oscar
março 11, 2010
Todas as vezes que a semana do Oscar é exibida, acabo sempre escrevendo algo sobre a premiação. E dessa vez não vai ser diferente. Embora, eu achar que é um prêmio covarde, pois os filmes dos outros países não disputam com os americanos, acho que vale a pena mostrarmos o que de “melhor” tem sido feito em Hollywood.
Esse ano dois filmes eram os grandes finalistas: “Avatar” e “Guerra Ao Terror”. Não assisti ao vencedor, mas vi a nova peripécia exagerada do James Cameron com óculos 3D. Os meus outros amigos, Tadeu e Sammy, que assistiram comigo saíram mais pessimistas e frustrados do que eu. Quando, na verdade, achava que eu sairia mais irritado do que eles. Talvez por eu achar que o filme era pior do eu imaginava. Apesar de a história ser insossa, o óculos pra mim foi o maior vilão. Tentei tirá-lo do rosto, mas a tela borrada e desfocada se tornara improvável de ver. Tirando a luta contra o sono quando tinha um pouco mais de uma hora e meia de filme.
Esse ano, os filmes por quais eu torci foram “Bastardos Inglórios” e “Um Homem Sério”. Não vi além desses dois filmes o que chegassem perto de originalidade e sagacidade. “Preciosa” me parece ser mais um “filme brasileiro”. Eu poderia ir ao Estação Botafogo e perguntar qual é o filme nacional sendo exibido, que seria igual a ele. “Educação” é um filme belo, mas que não empolga. Não entendi o porquê de “Up” ser indicado a melhor filme, se concorreu também a filme de animação. “Distrito 9” tem que entrar na história, mas não como o melhor filme, mas como uma nova forma de fazer ficção científica. É estupidamente melhor que “Avatar”, com certeza. Talvez quem poderia levar o prêmio além de “Guerra”, “Bastardos” ou “Um Homem Sério” teria sido “Amor Sem Escalas”, pois é tocante, ou “The Blind Side” que eu ainda não o vi.
Mas o que me deixou mais contente, e por qual mais torci, foi a vitória de Jeff Bridges. Como eu disse antes, o Oscar é um prêmio de marketing e um voyeurismo do próprio americano. Mas o fato de Jeff ter levado o prêmio é o reconhecimento de um dos melhores atores que Hollywood já teve (e tem), mas que a grande massa cinéfila e metidos a entendidos como Rubens Edwald Filho e Roger Elbert, ignorou. Eu entendo, pois Jeff ao longo dos anos, fez escolhas erradas na carreira, além do seu problema com alcoolismo.
Sua última indicação ao Oscar foi em 2000, pelo filme “The Contender” (aqui no Brasil como “A Conspiração”), dezesseis anos após sua indicação em “Starman”, de 1984. E dentro desse todo tempo, o que mais Jeff fez foram filmes de ação meia-boca, comédias bobocas e uma ficção científica confusa chamada “K-Pax”. Mais um motivo de pensar o que se passa na cabeça dos grandes executivos e agentes despreparados para gerenciar a carreira de atores grandiosos como Jeff.
Seu primeiro filme, pra dizer a verdade o primeiro de mais expressão, foi quando ele tinha 22 anos em “A Última Grande Sessão de Cinema” de Peter Bogdanovic. Eu devo dizer que me impressionei com a agilidade nos diálogos, a precisão das expressões corporais e a vulnerabilidade de um personagem garanhão enganado pela namorada, a então Cibyl Shepard. Depois de ser cotado para fazer Travis Bickle em Taxi Driver, Jeff fez a medonha versão de “King Kong” da década de 70. Acho que foi daí que sua carreira não deslanchou como seus outros colegas Al Pacino, De Niro e etc.
Na década de 80, Jeff fez dois trabalhos incríveis: em “Starman”, o alienígena que cai em missão de paz na terra (é claro que deu tudo errado) e na pela de “Tucker”, o engenheiro pai de família, simpático e obsessivo pela construção dos seus carros, dirigido por Coppola. Ele fez também o divertido e Cult “Tron”, que está para sair a continuação ainda esse ano. Na década de 2000, você pode ver Jeff em dois momentos: no treinador de cavalos em “Seabiscuit” e no vilão em “Homem de Ferro”. Na década de 90, Jeff teve um sucesso no filme “Nada a Perder”, mas ele é lembrado mesmo em “O Grande Lebowski” onde criou vida no ex-pacifista, vagabundo e jogador de boliche nas horas vagas como o lendário Dude.
Assisti nessa semana a incrível, como muitas, atuação de Jeff Bridges em “Coração Louco”. Era um dos filmes que eu mais esperava. Senti no fim da exibição que não era um grande filme. Tem um final que deixa um pouco a desejar, pensando no público. Um pouco de cenas desnecessárias e planos bem elaborados e corretos. Mas o que nos deixa mais motivado é o fato de Jeff Bridges conhecer bem o universo da bebedeira, do showbusiness e da música country. Creio que se fosse outro ator, ele teria feito o máximo para emocionar o público e se fazer de vítima. Jeff faz exatamente o contrário. Apesar de Bad Lake ser um homem simpático e atencioso com os fãs, ele é asqueroso e porco. Vive de calças abertas, bebe o tempo todo e acende um cigarro no outro. Uma das melhores cenas é quando ele está fazendo um show numa casa de boliche decadente. Bad canta um dos seus sucessos, mas acaba saindo do palco pra vomitar e depois volta para cantar o último verso e se despedir. No fim, ele acorda no seu quarto com uma fã velha e feia.
Quando Bad Lake conhece Jeanne, a jovem jornalista, começa então seu momento de redenção. O que mais me chamou a atenção foi a parceria com a atriz Maggie Gillenhal, que, apesar de ser uma belíssima atriz, é difícil encontrar um ator que mantenha uma química com ela. E isso Jeff Bridges tirou de letra. O que impressiona, pois, mesmo aos 61 anos, Jeff consegue manter química com qualquer ator. Às vezes é tão estranho, quando alguém muito diferente de atuar, de se portar, acaba sendo bem escalado ao lado do ator.
O que é mais curioso, é que Jeff continua demonstrando o mesmo carisma desde “A Última Sessão de Cinema”. A mesma vontade de atuar, embora, dizem, que ele é um dos atores mais preguiçosos de Hollywood. Delineando entre a emoção e o humor, transformando raiva em comédia, a derrota em esperança. O que exatamente falta nos atores atuais. E falta também no cinema atual.
O que ainda me motiva no cinema hollywoodiano é o fato de grandes diretores e atores da década de 70 continuarem na ativa. E me deixa mais contente quando alguns deles, ao torno de 60, 70 anos de idade, estar recebendo prêmios. Existe um frescor desses artistas que falta em novos atores como alguns Robert Pattison ou diretores como Antoine Fucqua. Hollywood tem sido ruim para eles mesmos quando não indica uma bela animação como melhor filme (não esses da Pixar, me desculpem), quando ainda indica Meryl Streep ou Judi Dench para melhor atriz e que considera filmes de grande bilheteria como o “melhor” ou um dos “melhores”.
Porque Hollywood se assusta quando veem um Guilhermo Del Toro ou um Peter Jackson entrando de penetra na sua própria festa? Será se é tão difícil eles pensarem que cinema é uma mudança constante? E às vezes não é nada demais. Essas mudanças são apenas uma restauração do melhor do seu cinema que foi esquecido por décadas, como faz o próprio Tarantino.
Não acredito nem um pouco nessa premiação, mentirosa e estúpida. Ela apenas incentiva a indústria de DVDs lançarem seus produtos em edições especiais e colocarem qualquer filme que eles acharam bom o suficiente para ter aquele selo da estatueta careca e dourada, como se fosse um terno Armani. Ou seja, pensam no mercado, não na arte.
Hollywood só faz mal a ela mesma. É uma pena.