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Cinco Minutos

maio 18, 2010

Eram por volta das 11:31 que entrei na casa. Os cômodos vazios, a parede branca e parecia inabitável por alguém. Não havia nada na casa, além de ecos, o chão molhado e algumas garrafas de cerveja. Um pano molhado na porta da cozinha marcava as suas pegadas. Me aproximei desse corredor como se fosse um ladrão assaltando a casa. Andava com medo, passando pelas paredes, pelas poças de água no chão, e o banheiro que vinha um flashback instantâneo. A impressão que eu tinha era que eu mergulhava na pior das escuridões: a ausência. Uma ausência que corroia todo o meu âmago, que enrijecia os músculos do meu corpo e uma quentura na testa, como se, a partir daqueles passos, uma febre se aproximava e iria consumir, desde então. O quarto. O quarto branco. O quarto branco que cegava meus olhos. Como se as unhas de uma águia arranhasse meu cérebro e dominasse minha cabeça. A impressão era que eu estava esperando por alguém dentro de um quarto de manicômio. Esperando que alguém viesse até a mim e fizesse lobotomia. Um louco com imagens alucinógenas. Inúmeros fantasmas do mesmo fantasma rodavam e dançavam como se dançasse tango ao som do Astor Piazzola.

Um suspiro ecoou na casa. Meus pulmões estavam tão cheios, que parecia que ia me faltar ar. Gastei dez segundos de respiração nesse suspiro. O suficiente para me matar. Preenchi esse ar com a ajuda de um marlboro vermelho. Tirei o maço do meu bolso rapidamente e acendi com muita agilidade. Nesse momento o cigarro era um inalador. Inalaria toda uma dor que sentia dentro do peito. Essa dor que arrancava todos os meus órgãos. Suspirei novamente e respondi uma pergunta que alguém dentro da casa havia feito para mim. Respondi roboticamente.

Acendi a luz do quarto. E o fantasma parecia se dissolvido. A imagem. Não a presença. No piso branco, cabelos e pêlos tapeteavam (uso agora neologismos que é de seu costume) o chão. Deslizo a sola do meu pé sobre eles e os bagunço pelo quarto como se fossem areia. Caminhei até o CD player desviando dos seus fantasmas e me aproximo de um lençol. Rasgado, velho e talvez sem mais utilização. Só para mim. Me abaixo e pego velho lençol. Quando o abro, o seu cheiro acentua ainda mais na casa. Permaneço ali, em alguns segundos, pensando.

Desta vez ligo o som e Bruce Springsteen já está no player. Pulo para a faixa 12, “Janey Don’t You Lose Heart”. Encosto na parede e vejo seu fantasma sobre meu corpo. Tento abraçar o seu ectoplasma, mas ele escapa sobre meus braços. Nesse momento ela se projeta contra a parede me observando, como de costume. Me observa fumar meu cigarro e beber a coca-cola, agora quente, no meu copo. Seus habituais olhos de curiosidade penetram nos meus. Esse olhar nos congela. Ficamos apenas nos observando. O fantasma e eu. Dentro de um piscar de olhos, eu a vejo deitada sobre o lençol olhando para o teto. Agora o piano de Chopin engole a guitarra raivosa de Bruce. Deito-me e ela não está mais lá. Me levanto novamente e dessa vez ela está do meu lado. Encostada na parede, dessa vez vestida. Dizendo: “vamos embora?”. Olho para o céu e o tempo agora nubla. Vejo a hora no meu celular e marcam 11:36. Como na outra vez, ela não está mais ao meu lado e em nenhum lugar algum do quarto. Franzo as sobrancelhas e saio do cômodo.

Durante toda a arrumação na casa, foram momentos sofríveis. Em algum momento a minha vizinha conversa comigo sobre a janela, a conversa, que não tem importância alguma nesse texto, me faz distrair um pouco. Tudo que se distrai ou se desvia, não passa. Só faz voltar tudo de uma vez. Estendo os panos de Chão, jogo água na área de serviço, passo pano molhado nas janelas. “Não vou aguentar ficar muito tempo aqui”, pensei. Vejo na janela um palito de sorvete. Ainda tem o cheiro de limão. Um sorvete que fora dividido. A presença ficava forte, até que, presenças reais aparecem. Converso com eles, troco ideias sobre a casa, mas minha cabeça parece não acompanhar o que eu mesmo dizia. Troco meu CD do Bruce Springsteen por um da Elza Soares. Algo trazia esse fantasma novamente com esse disco. Deixei o CD rolar, enquanto o eletricista acompanhava com assobios.

Resolvo sair para almoçar. Aonde? O bar em que eu costumo almoçar, vai trazer o fantasma comigo. Nem fome o suficiente eu sentia também. Entro numa confeitaria e peço um misto-quente. O sabor desse sanduíche me trazia lembranças. É claro, dela. Parecia que eu mordia os pensamentos que me viam em mente. Seus pés, suas mãos, seus olhos, a gesticulação do seu corpo. Tudo isso incluía no sanduíche. Dentre os períodos em que eu bebia a coca-cola que acompanhava o “almoço”, me dava mais vontade de morder o sanduíche. E a cada mordida, cada degustação, a fome aumentava. Tudo era tão rápido nesse momento. Até que meu celular faz um barulho. É ela. Dizendo que ia viajar. Eu comecei a uivar na janela. E as mordidas já não eram tão mais saborosas quanto às anteriores.
Me preparava pra ir embora, mas o serviço dobrava a cada instante. Mudança de lâmpadas, trocas de fios, pregos nas paredes. Não me perguntava o porque estava andando por um lado e pro outro. Porque eu não queria ir embora? Não foi sacrificante o suficiente? eu me perguntava.

Sentei-me cansado no lado de fora. Enchi meu copo de mais coca-cola e acendi o penúltimo marlboro do maço. O celular toca. Levanto e vejo quem me ligava. É ela. Dizendo que estava vinha vindo me ver. O vento soprava em minha direção agora. A meu favor. Esperava ansiosamente agora. Me lembrava do que eu estava pedindo, das instruções ao eletricista. Acendi o último cigarro, joguei o maço vazio fora. Calcei meu chinelo havaianas e…escuto meu nome. Escuto mais uma vez meu nome…

Será que é ela? Me certifico tocando o seu corpo. Meu tato não me enganava. Meu paladar conhecia muito bem aqueles lábios. Eu estava certo. Era ela. Dentro da escuridão que cercava o corredor, ao meu redor as luzes se acendiam. Não me lembro de mais nada. Olho no relógio e marcavam 17:40. A apresento às pessoas que estavam ao meu lado durante o dia. Eles também estavam com ela durante todo o dia, mas não sabiam. Só eu sabia que ela estava ali.

Quando a deixei no metrô, resolvi dar meia volta para vê-la de novo. Talvez para me certificar que ela estava ali. Ela estava de volta. Pra dizer a verdade, ela sempre esteve. E ainda está. Ela passa pela roleta do metrô. Eu olhei no relógio. Tivemos pouco tempo juntos, só cinco minutos. O relógio marcava 18:30.

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