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Manual de como sobreviver numa crise de abstinência (e não sucumbir ao desespero)

junho 10, 2010

Tudo o que um homem que vive da escrita não pode ter é ansiedade. Isso reflete na parte criativa, no isolamento com as pessoas, seu humor muda constantemente e suas pernas não param de se agitar a cada segundo. Come compulsivamente, mas não tem fome. Fuma, mesmo quando acabam seus cigarros, bebe como se não houvesse bebidas destiladas no dia seguinte e não consegue ter um fiapo de sono. É o pior inimigo do escritor. Ele consome todo seu cérebro, mantendo-o ligado 120 volts, sem nunca te deixar parado no mesmo lugar. E o que mais interrompe numa crise de ansiedade é que você quer fazer tudo ao mesmo tempo e nunca consegue fazer nada, porque, na verdade, você não quer fazer.
Foi assim que eu me senti no último feriado. Ansioso. Desprovido de vontade de fazer qualquer coisa para mim. Uma grande abstinência que deixou todos os meus sentidos confusos e num corredor vertiginoso que me fazia andar sem antes me segurar nas paredes.
Devia ter resolvido coisas pendentes, ter recebido a visita na minha casa de forma cordial e atenciosa, ter almoçado direito e ler os livros que estão espalhados pelo chão. Na verdade fiz tudo isso. Mas eu simplesmente não estava ali. E como eu agi? Como um escritor ansioso e com crise de abstinência, claro. Era como se meus sentidos entendessem minhas próprias linguagens de sinal e seguia num controle remoto mecânico e filtrasse todos os meus subterfúgios. Meus olhos giravam como um desenho de uma bala, em voltas verticais e giratórias e a única coisa que eu queria era andar, andar, andar e andar. Sem nada na minha mente. Tudo era deletado da minha mente. Com exceção, Ela.
O telefone tocou naquela tardinha de quinta-feira, era a minha agente. “Você vai ou não?”. “Onde?, respondi. “Onde, porra?! É assim que você quer ganhar a vida? No evento, cacete!”. “Ah, sim. Vou, eu vou”, respondi. “’Eu vou’.”, ela repete. “Se veste logo, porra! Chega cedo dessa vez”, continua. Ela canta um funk proibido qualquer e desliga o telefone. Faço o mesmo e entro no chuveiro. Me encontrava um pouco aliviado, pois havia conversando com Ela pela internet. Não era a mesma coisa, mas diante das circunstâncias, era um sal de fruta no meu estômago.
Como todos os eventos em que sou chamado, ela é cheia de luzes, música alta e gente animada. Finjo estar super animado também, e que aquele trance bate-estaca estava soando como a Ella Fitzgerald. Ouvia a Ella cantar “How Long Has This Been Going”. A primeira garrafa de Heineken é sempre a melhor. Bem diferente da oitava que já pesa no seu estômago como uma bigorna. Mas eu nem pensava nisso e intercalava com um drink moderno que roubei de uma amiga. Em outra situação minha libido estaria batendo no teto, mas permaneço imóvel e concentrado como nos últimos dois meses. Todo o planejamento de ser uma pessoa promíscua e que gostaria de aproveitar os anos dourados de solteiro, rasguei. Dou Shft + Del e excluo completamente de mim.
Fui para a área de fumantes e observei a névoa de fumaça. Olhei o céu, bem arquitetado com as estrelas, e as conversas alheias são ofuscadas com “Willow Wheep For Me” da Sarah Vaughan no meu invisível DJ. Quando percebi, estava bebendo o último gole de um drink esverdeado (que não fazia idéia do que era), até que um amigo me chama a atenção: “vamos embora?”. Concordo, e deixo o copo numa cadeira. Me sentindo um Frank Sinatra quando larga o copo de wiskhy e seu cigarro de qualquer forma, balanço a cabeça com “For Once In My Life” invisível e saio do lugar.
No dia seguinte eu acordava na casa desse amigo com o rádio da empregada. Boechat informava que um comboio xiita no Iraque fizera um atentado deixando 95 mortos. “O dia mais sangrento do ano”, dizia ele. Eu concordava. Eram os dias mais sangrentos do ano. Pelo menos para mim. Forço a vista pra que não lute contra a luz do sol e emito o meu clássico: “Jesus Christ!”. Que dor de cabeça. A habitual dor de cabeça. Deveria sempre pensar nela quando resolvo beber demais. O café e o cigarro matinal me despertam como uma alavanca e resolvo tomar coragem de me arrumar e ir para minha casa.
No meio do percalço o motorista do ônibus, sintonizado numa rádio, executa “Every Breath You Take” do Police. Coloco minha cabeça pra fora do ônibus para respirar. Invado no meu próprio silêncio e deixo as boas recordações vir à minha mente.
Quando chego em casa, ela está vazia, fria e sem vida. Passeio pelos contornos dela. Me aproximo com medo dela. Há algo assombroso nela. Um frio na espinha e uma pequena falta de ar fazem com que eu feche meus olhos e me obrigue a relaxar. Bebo água e respiro fundo. Acendo um cigarro e vou ao banheiro. A água quente infiltra-se no meu corpo como facas. Quando entro no meu quarto, todas as perguntas vinham em minha mente. Será que eu ia conseguir sobreviver no meu quarto? Quantos cigarros eu iria consumir desde então? “Every Breath…” mudaria para “King Of Pain” agora? Enquanto mastigava uma comida sem graça à contragosto e lia o jornal, começava a sentir os sintomas do dia anterior. Então, uma janela mágica abre no canto do meu monitor. É Ela. Ela veio me salvar. Minha santa. A quem sou devoto. O antídoto de todos os meus sacrilégios. A cura dos meus estigmas. Amém.
Os dias duraram como anos, eu sei. Mas nos últimos dois dias fui recompensado com os nossos 10 minutos. Minutos esses, que proporciona o tempo da idade das raposas.

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