
O bêbado e o equilibrista
julho 25, 2010Eram por volta das 4 da manhã que eu chegava nas ruas de São Cristóvão. Um bêbado, desfacelado pela angústia, ou por escolha, acabara de ser espancado e assaltado por menores viciados em crack locais. É a volta do antigo personagem que vivia nas sombras dessas ruas escuras e perigosas. Ligo para a Samu. Após meia hora eles chegam e diagnosticam. Da mesma forma que eu diagnostiquei. Bêbado. Por onde passava a cabeça desse homem quando caiu na maior e obscura mente humana? Qual é a escuridão do seu coração? Eu o observo e, mesmo entre vômitos e sangue em seu corpo, havia uma preocupação e agonia no seu rosto, mesmo de olhos fechados.
Quando cheguei, sentei na cozinha de um amigo, ligo o rádio, tiro seu laptop do armário e resolvo escrever. O relógio marca 5:05 da madrugada e misturo uísque com coca-cola num copo de geléia. Na rádio, “Mercy Street” do Peter Gabriel. E roubando uma frase de uma amiga que recebi num velho e saudoso email, ‘A sir singing a about sad song’.
O que hoje muda a minha história? Talvez o fim de um ciclo. Que foi dilacerado, por motivos justificáveis. Fico pensando na justificativa, e é complicada de entender. Mas está ficando mais fácil de conviver. Mas nunca conseguimos conviver com um vizinho chato ou a morte de um ente querido, não? Há de se acreditar numa ressurreição, mas ela só vem quando os céus disparam um contra o outro.
Fico pensando numa conversa, enquanto bebo minha mistura alcoólica e acendo um cigarro numa cozinha escura. Coloco meus dedos entre o filtro do cigarro e olho para o teto. Fico rindo, sorrindo dos melhores momentos. Agora era uma saudade gostosa de sentir. Mas quando penso que essa saudade não será mais suprida percebo que o momento não é dos melhores. “By My Side” do INXS me faz cair numa escuridão. Talvez a mesma do bêbado.
Fiquei pensando quando a enfermeira-chefe examina o homem e diz que ele é o resto do ser humano, que não tem o porquê dele estar assim. As pessoas trabalham com seriedade de madrugada. Eu discordei dela. Ela me observou assustada, achando que podia intimidar a todos, inclusive as que pedem ajuda. Eu disse a ela: “Qual é a diferença dele pra mim?”. Ela diz que a diferença é óbvia. Discordo novamente. Não só porque estou bem mais vestido que ele, mais sóbrio que ele, e que meu rosto não está que nem um purê, que me faz ser diferente dele. “Olha pra isso. No que você se identifica?”, ela frisa com sua pergunta. “Estou no mesmo quarto escuro que o dele”, respondo. Ela não dá bola para minha filosofia barata e recolhe o homem. O carro da Samu segue e observo eles levarem o homem.
Enquanto pensava na cozinha e escrevia, minha mente projetava aquele rosto. O rosto que mais gosto de lembrar. “Cada um com seu copo de vazio”, ela dizia para mim nessa noite. Bem, meu copo está cheio. E quanto mais bebo, o copo enchia mais. Num passe de mágica, o uísque retornava à minha vida. A mesma vida que tenho seguido nos últimos meses.
E vejo que esse ciclo tem se fechando exatamente de onde comecei. Há duas explicações: quando um planeta para de rodar num sentido, ele retoma no sentido contrário. E para qual lado esse sentido redirecionava na minha vida? Ainda não faço idéia. Espero que esse sentido retome um ciclo no mínimo desejável. Aguardo respostas da minha vida. E torço que siga para o caminho que espero. Da mesma forma que o homem que entrou naquela ambulância. Espero que amanhã, quando acordar, as luzes das nossas vidas estejam acessas.
Enquanto Elton John acabava de cantar “Don Let The Sun Go Down On Me”, encerro mais um pedaço desse assunto. Mais um fragmento dessa minha vida louca. Esperando que more dentro de mim. Os pássaros começavam a cantar, o dia começava a clarear. E já estou bêbado o suficiente para dormir. Agora pronto para entrar na minha própria caixa escura.
Abraço.
Caixas escuras são necessárias e aconchegantes. Quando entrar, tenha os olhos bem abertos. Se por acaso tiver medo, ou lhe faltar o ar, feche os olhos. Respire fundo. Um novo Universo se abrirá.