
Rocket Man
agosto 12, 2010Observo a tela branca do Word e o cursor, como uma feiticeira, some e aparece a cada milésimo de segundo. Estou transbordando de ideias e sentimentos, mas o turbilhão é tanto que não consigo organizar as idéias. A única frase que eu tenho vontade de escrever é: “puta que o pariu!”. Levanto a barra de rolagem e vejo tudo que foi escrito. As ideias ainda não estão disponíveis na minha cabeça. Por pouco não pego o laptop e jogo contra a parede. Levanto e vou até a geladeira pegar uma soda e encho meu copo um pouco mais da metade. Vou até a estante do bar e pego uma garrafa de Logan e preencho meu copo. Acendo um cigarro. O habitual ritual ainda vai desgastar meu estômago. Mas não estou nem um pouco preocupado com isso no momento.
A fumaça do meu cigarro sobrevoa sobre meu rosto, chegando ao ponto de cegar meus olhos. Vejo a rua pela janela, caem gotas de chuvas, águas turbulentas despedaçadas como um meteoro evitado por cientistas. Espero que uma conhecida trovoada surja, mas estou mais distante dela no momento.
Meu celular está desligado, não há nenhum contato, a não ser eu e o computador no momento. Só algumas pessoas que me cercam. Elas me deixam sob o meu controle melancólico. Tento buscar algum momento olhando para os azulejos da cozinha e me vem uma imagem. Sorrio, mas ainda não é o suficiente para que meus dedos comecem a trabalhar. “Que vontade de jogar esse laptop no chão”, eu penso. Uma mosca pousa no meu dedo, eu a afasto. Ela insiste, e faço o mesmo movimento anterior. Ela viu que eu não estava de brincadeira, então ela passa a namorar a maçã que estava ao meu lado. Cultive isso, dona mosca.
Como vou terminar isso aqui? Não faço a menor ideia. Olho alguns documentos, textos, fotos, músicas…aquilo não fazia disso um final. Pioraram minhas idéias, mas melhorou meu coração. É uma bela forma de negociar.
Ligo a TV e vejo um canal de jornalismo. Era um documentário sobre o Uruguai. Penso como seria minha vida lá, sem um passado na minha cidade. Essa cidade que agora estão com as luzes amenas e um silêncio ensurdecedor dizendo que todos estão em paz, no maior profundo dos sonos. Como seria deixar a minha cidade, onde me criei, onde conheci as melhores coisas que um homem, como eu, construí? Imagino deixar para trás um passado recente que me manteve de pé. Eu não estaria fugindo de nada, só pensaria como viria a ser suportar longe do sol que me queima. Talvez voasse entre as estrelas e me despediria por um tempo indeterminado de um solo pisado por todos esses anos. Não preciso de tanto, afinal voar tão alto não vai me fazer chegar ao sistema solar que eu desejo.
Sacudo a cabeça e retomo a minha escrita. Começo a escrever sobre a mudança de estação, pois é esse o meu calendário. O meu calendário Maia, onde deixei de ser um simples primata, uma vida que tinha absolutamente nada que me fizesse esperar o amanhã. Vivia apenas o dia de cada vez. Na verdade, por mais que as pessoas digam que viver um dia de cada vez é uma necessidade, para mim se tornara mais fácil viver o amanhã, pois é a única forma de transformar uma esperança em realidade. É quando pedia à força superior para que acelerasse o relógio. Ou me afundava na minha cama ou lia um livro qualquer que não me trazia o menor interesse, como a história da Coca-cola.
Fecho o laptop desistindo, as palavras também não queriam falar comigo no momento. É uma rotina atual.
Quando fui dormir, fiquei pensando de quando entrei naquela igreja. Na igreja que meus pais se casaram, mas que foi ofuscado com uma imagem/lembrança grandiosa no altar. Me senti zonzo quando entrei e agora essa tonteira vinha fisicamente. Mudo de posição para que ela passe.
Devo dizer que o final só veio logo assim que cheguei em casa. A mesma casa vazia e fria como de costume. Senti frio quando terminava a história, sem álcool, um cigarro acesso, onde as fumaças faziam desenhos abstratos sobre a luz que pairava do abajur. Fiquei tão satisfeito com meu final, que fui até o bar ao lado para beber uma cerveja. Fiquei sentado naquele mesmo bar onde havia seu fantasma. O mesmo fantasma que havia visto no metrô conversando comigo. Me sinto assombradamente bem quando ele vem.
Uma semana depois de ter terminado o meu trabalho, resolvo fazer uma limpeza no meu quarto. Recolhendo livros, notas fiscais, CDs e caderno.
Até que me vem uma surpresa que eu não esperava. Um cartão de um hotel fazenda da Ilha de Paquetá. Como estava há tanto tempo aí? Novos turbilhões de imagens vêm em cortes secos e rápidos. Sento na minha cadeira e acendo um cigarro. Elton John me dava razão nesse momento quando cantava “Rocket Man”. Talvez voar seja o meu maior hábito nos últimos tempos. Eu já viajei entre as estrelas e ainda não percebi. Só que eu ainda sinto falta da constelação.
Abraço.
Cadê tu, meu garooooto? Ainda refém da melancolia, ou é só literatura? Beijos, saudade. Velha bia.