
Nothingman
setembro 4, 2010Como alguém consegue arrancar meus predicados? Palavras, que nunca foram ditas. Que nunca saíram de mim. Como as palavras saem tão fácil quando você mira em alguém e faz dela seu alvo? São perguntas persistentes que me atordoam, que me deixam incapaz de qualquer reação. Em épocas difíceis, de que meus dedos, presos a ideias repetitivas, conseguem arrancar meu coração e sangrar essas páginas que aqui escrevo. O que faz uma pessoa que coloca óleo em minhas enferrujadas juntas e desliza em meu cérebro deixando as mesmas ideias transcorrerem dentro de mim?
Quanto mais leio os emails, mais fico sem entender. Eu os leio duas, três vezes, e concordo com tudo o que disse. Mas, como se eu não sou a outra pessoa para concordar? O que sai de dentro de mim é a minha agonia de não ter por perto algo que está inalcançável. Algo que ainda não está curado, que talvez eu não queira curar.
Ontem, quando estava no supermercado, um rapaz de terno, portando um celular moderno tocava um hip-hop alto, enquanto esperava o andamento da fila. Era a única coisa que me fazia chamar a atenção. Observei as latas de cerveja que estavam na minha cesta e olhei para elas e disse: será que vocês vão me ajudar? De certa forma elas me ajudaram. Mas elas vão embora tão rapidamente que, quando acaba a festa em meu cérebro, sou eu que tenho que varrer a bagunça que está nos meus pensamentos. Foi assim que se encerravam mais uma fase de dois dias longos e torturantes. Eu rezo, me ocupo, observo textos, tento escrever qualquer coisa que me faça desviar dos meus pensamentos. Desisto, caio na cama e acendo um cigarro. Essa mesma cama, me engole com suas vestimentas e sinto-me sufocado. Levanto, vou até a cozinha e engulo de uma só vez um copo d’água. Dentro desse apartamento eu olho para o chão. O chão pisado por tantos, mas que de alguém há de ser especial. Como uma criança que pula amarelinha, dou um longo passo para que não arraste a sola do meu pé naquele piso gelado.
“Oh, long day”, brinco fazendo uma analogia com a música “Happy Day”. Sento no computador e não há nada de interessante. “Como é monótona a internet sem ela”, penso. Acho que já escrevi essa frase em algum lugar. Mas não vejo o porquê de não repeti-la. Acho que é melhor: “Como é monótona a vida sem ela”. Acho que assim está melhor, queridos dedos.
Enquanto Pearl Jam tocava “Nothingman”, calmamente, olhei para a minha cama, que não tem nada de altar. Um cheiro intenso sobrevoa sobre meu nariz, que ainda está ali. Eu deveria ter engarrafado esse cheiro. Estou destinado a lembrar desse cheiro. Não sei se é uma maldição no momento, mas ele é bom, e que seja esse meu castigo.
Sentado no chão e com o cigarro acesso, observo o céu. A lua me acariciava nesse momento. Ou era eu que sentia uma mão sobre mim? Quando olho para baixo, uma projeção. A projeção me dizia: “vai ficar tudo bem”. Porque sempre me fala isso? Quando isso vai acontecer? Aguardo essas respostas, aguardo os seus sinais. Uma miragem. Uma presença que eu observava de longe. A vejo caminhando até a mim, em minha direção. Não é real, eu sei. Mas estava forte a cada passo.
Assim como as palavras, meus pensamentos são inesgotáveis. Imito-a, balançando a cabeça devagar. Uma herança física, era tudo que eu precisava no momento. Parecendo que seu espírito mergulhou em mim, sinto suas dores, que agora se duplicam em mim. Saio de transe, bebo o resto da minha cerveja e coloco a lata dentro de um saco preto.
Agora, uma confusão em minha mente se alastra em meus pensamentos. Fico observando o teto do meu quarto. Pearl Jam ainda está em plena sinfonia. “Homem de Nada”, Eddie Veeder me dizia. Concordo, Eddie. Viro-me de lado e fecho meus olhos. São um pouco mais de 2 da manhã e tenho que acordar cedo. Fecho os olhos devagar, esperando que aguarde os fios propulsores da minha mente desligar. Peço que me mostrem um futuro, dentro da bola de cristal sonolenta. Alguma imagem que não me faça querer acordar tão cedo no dia seguinte. Acho que esses sonhos também são inesgotáveis.