
Pietá
novembro 12, 2010Para quem o conheceu, sabe onde encontrar o velho túmulo. Para quem o quer de volta, é só procurar pelas luzes cintilantes que cega qualquer desesperado por claridades noturnas. Você os terá. A agenda telefônica, os livros que soltam risadas monstruosas e secas, a velha garrafa de álcool derramada pelas ruas do centro da cidade que escorre como sangue pelos ralos, alimentando novos ratos que procuram por essa comida. Eu não preciso mais dele, já me cansou só de observá-lo pelos cacos quebrados desse espelho. Desde a ressurreição, meu evangelho tem sido outro, os versículos mudaram, os mandamentos apagados e o mar morto agora separado. Dentro desse cheiro das rosas que você inala no momento, há cheiro de vida. Coloquei folhas de orquídeas no meu próprio túmulo. “Jaz alguém que ressuscitou”, escrevo num pano esvoaçante.
Qual é o significado da minha morte? A vida, essa talvez seja a melhor resposta. O que deixei pra trás agora são apenas passos que deverão ser seguidos por outras pessoas que irão me substituir, e outras que irão substituir e outras que vão anteceder meus sucessores. As únicas coisas que me restam são os sonhos. O sonho de transformar tudo que quero em realidade. Os sonhos que estão por aí, que não morrem. Todos podem sonhar, podem construir uma realidade que não são vistas pelos homens da razão. Até um mendigo pode sonhar. O sonho é a única coisa que a natureza não pode deixar entrar em decomposição.
Mas, antes de sonhar, você tem que saber onde sua mira vai lançar as balas e o alvo deverá ser coerente e real. Assim, junto com o surrealismo e a irrealidade, ele trará onde você realmente quer estar, como no novo filme do Christopher Nolan. Mas como transformar seu sonho desenhado na sua mente para que depois as pessoas observem ou a farejem? Simples: pense o que você quer da sua vida, depois nas impossibilidades de onde seu sonho esteja inalcançável e faça dela seu estilo de vida. Simples? Simples porra nenhuma! É muito difícil. Embora, se você não fizer dessa forma, sua vida será apenas umas dessas telas contemporâneas de merda, vazias e ainda sem título.
Mas…voltando ao meu enterro. Gostaria de deixar tudo que já vivi em vão para as pessoas necessitadas, que tem fome por uma vida desregrada e imunda que eu tive até final de março deste ano. Além de eu ter me enjoado dela, não consigo nem pisar onde estava. Tenho claustrofobia, totalmente desprovido de vontade de pisar em um buraco negro onde não sei onde vou parar.
Todos agora me perguntam o porquê de eu estar velando meus próprios passos. E perguntam: Ele mudou? Ele não vai ser mais o mesmo? Bem, podem tirar a “éguinha” da chuva, pois não mudei. Sou o mesmo que segura a terra com a mão direita e o mar com a esquerda. E isso eu não deixei cair, não é mesmo? Não acham?
Mas o que eu devo dizer é que eu me apaixonei por um cachecol e estou amando o que tem atrás dele. Enquanto as pessoas diziam: “não, você não pode!”, eu já estava lá. Hoje, quando cheguei além do que as pessoas diziam, mesmo sem antes conhecê-la, as pessoas compreendem o lugar onde estou. E elas jogam rosas no meu túmulo também com alegria. Porém, sempre rezando para que essa ressurreição seja feita de forma digna e fiel. Digna com a minha vida. Ouço alguém dizer ao meu ouvido: “Você está em bom lugar, como nunca esteve. Eu sei que você não vai fazer merda.”. Nunca sei quem é, talvez seja alguém que me deparei quando tinha nove anos de idade. Não me pergunte se é entidade ou a minha rainha de espadas.
Hoje, enquanto fumava um cigarro deitado na minha cama e Bob Dylan cantava suavemente no som, eu observava o meu quarto sem móveis. Foi ali que eu nascera. A casca de ovo quebrou ou algo saiu do útero do meu mundo. Só sei que é puro e singelo. Difícil de ser quebrado. Indestrutível sentimento, que a cada dia segue mais forte. E uma flor murcha me observa na mesa (banco) do telefone ao lado da minha cama. Essa flor deu o supra-sumo da sua vida em troca da minha. Ainda a inalo e ainda há cheiro de seus belos cachos.
Hoje completei 30 anos. A minha vida começa agora.
Abraço.
Profundo… Sem mais.
PS: Parabéns pelo texto. Me impressionou.
Muito bom o texto, bom mesmo.