
Primeiro Capítulo
fevereiro 25, 2011Por onde você andava enquanto a sua vida era delimitada entre as frases de guitarras e baixos nervosos? É possível você pedir o perdão, a qualquer um que seja, por sua vida ter sido rock n’roll? Tudo que eu não quero é pedir perdão e voltar atrás do que eu já aprendi. Por todos os passos do submundo e de ruas estreitas e sujas, pessoas jogadas em sacos de lixo e o pior odor exalado do mundo, posso dizer que eu nunca quis estar lá. Embora, sem escolhas, o submundo chegou até a mim sem que eu quisesse em determinada parte da minha vida e aprendi muito com ele. Aprendi principalmente que não é ali onde quis estar. Enquanto pessoas filosofam sobre Rosseau e enaltecem grandes pensadores da história, sem nunca estar lá, eu precisei lê-los de forma cruel e bruta. E, de fato, o submundo não me venceu. Nunca quis ser um aprendiz de Bukowski e estar contente por sentir que ali fazia parte da minha vida. Sentei numa mesa de bar um dia desses e percebi em algumas pessoas o quanto gostavam de se sentir daquela forma. “Vocês querem o meu passado?”, era o que eu queria perguntar para aqueles três jovens que trocavam cigarrilhas de baseados. Estalei a língua e ri com ar de desaprovação, não por me sentir puranista, mas perceber o quanto as pessoas estão erradas com aquele estilo de vida.
Caros leitores, ontem senti um vento numa grama espalhada e senti estar dentro de casa com alguém que te faz te sentir em casa. Isso é muito mais especial que perceber que aquela vida de pequenas diversões não é o suficiente para a vida, é mais que isso. É perceber que existe vida. E não é tão fácil descobrir a vida. Alguém tem que apontá-la para você. É preciso coragem, fôlego para agüentar o que a vida reserva para você. E o mais importante: sentir o que a vida te reserva. E não há padre, monge, pastor, mãe-de-santo ou qualquer representante religioso que faça você seguir o rumo que você quer.
Às vezes as palavras ajudam, mas só te fazer entender não é o mesmo que sentir. Se você tem algum pecado, se tem algo para pagar, se você se veste de preto no reveilón…não importa…é muito mais fácil você lembrar pelas coisas boas que você fez e ainda faz. Um antigo chefe meu costumava brincar que “se você matar um leão por dia você é herói, mas se um dia fugir do macaco, joga fora todas as coisas boas que já fez”. Concordo com ele, esse é um mundo cruel.
Hoje não quero esquecer meu passado, mas prefiro viver o meu presente. E posso dizer a vocês que nunca me senti tão feliz de um ano pra cá. Não deixei de passar tantas dificuldades nesse meio tempo pra cá, e ainda sofro com algumas coisas, mas foi o único momento em que cheguei perto de Deus. Ou melhor, foi a única vez em que eu cheguei perto de mim. Eu tive uma imagem ou uma mensagem divina? Talvez sim. Mas não uma imagem de Cristo dentro da minha panqueca ou a imagem de Nossa Senhora em linhas nas borbulhas da minha coca-cola. Mas uma santa em que vi no altar certa vez cantando. A Santa do Amor, da Compreensão, A Santa do Despertar. Posso rezar todas as Ave-Marias e Pais-Nossos por Ela e ainda jejuar na quarta-feira de Cinza até a páscoa, mas é do pão e vinho (carne e sangue) que Ela me fez experimentar desde quando a vi. E desde então, tenho gostado do meu gosto.
Não é só da visceralidade e do Rock N’ Roll que neste pouco tempo da minha vida fora feita. E nem se quer tenho gostado disso tudo. Mas foi bom quando cheguei ao fim da linha, quem me recebeu voou até a lua comigo. Foi a melhor estação que saltei.
Bem, desculpe por esse post. Mas foi mais por desabafo que qualquer outra coisa.
Abraço.